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Resenha crítica do livro: Imagem – cognição, semiótica, mídia, de Lucia Santaella e Winfried Noth

Semiótica é o estudo dos signos, ou seja, as representações das coisas do mundo que estão em nossa mente.

 

De um lado, Lucia Santaella, coordenadora do doutorado e pós-doutorado em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, e respeitada pesquisadora de comunicação do país. O currículo Lattes de Santaella é deveras extenso, poderá até ser capaz de travar seu navegador. De outro Winfried Noth, professor titular e decano da Faculdade de Línguas Modernas da Universidade de Kassel, na Alemanha. Ambos os autores de “Imagem – cognição, semiótica, mídia”. Livro este que começou com uma singela troca de artigos e livros publicados entre os autores. O interesse mutuo nas pesquisas e a complementariedade entre os assuntos, fizeram com que Santaella e Noth explorassem aquilo que há de diferença na semelhança dos estudos de ambos.

A imagem é uma demonstração de como ser eloqüente. Ela é o meio de expressão da cultura humana desde a pintura pré-histórica, esta que não prescinde ao tempo. Na dificuldade de submeter à imagem a um exame analítico e uma plena investigação cientifica, surgiu esse volume, que em si, é capaz de dar conta da problemática dos signos visuais ou audiovisuais em toda sua plena extensão. Dentre seus objetos de estudo podemos citar a enorme variedade de possíveis atos comunicativos para os quais uma única imagem pode ser utilizada. As diferenças entre palavra e imagem também são abordadas de todas as maneiras com precisão. Temos também os gêneros imagéticos tradicionais, como a pintura ou fotografia, e as novas mídias, como o Holo, infográfica e a fotografia computacional, esta que atualmente é o maior desafio aos teóricos da imagem.

Santaella e Noth reúnem reflexões e fundamentações teóricas e analíticas de peso para uma abordagem séria das imagens. As principais correntes teóricas que examinaram o que eles chamaram de representação por imagens são citadas. Para Platão, as imagens não eram resultado da percepção, mas tinham origem na própria alma. Para Aristóteles, o pensamento é impossível sem imagem. Nomes como Foucault, Descartes, Derrida, Platão, Wittgenstein também estão fortemente presentes. Não podemos esquecer de Charles Pierce, no qual as teorias funcionam como um mapa de orientação para a leitura precisa de todos os tipos possíveis de signos, assim como nos diversos modos de aparição de uma imagem e da palavra.

A obra termina com um questionamento do valor da verdade nas imagens. Os autores concluem que as imagens podem ser usadas para asseverar ou enganar sobre fatos da dimensão semântica, sintática e pragmática. Com linguagem correta, culta, clara e coerente, a obra destina-se a estudantes e especialistas que lidam com o universo da comunicação e da publicidade, assim como quaisquer outros interessados em compreender os labirintos da variedade de possíveis atos comunicativos, para os quais uma única imagem pode ser utilizada.

Devido ao ótimo referencial bibliográfico e conceitual, para se ter uma compreensão mais satisfatória, sugere-se o conhecimento básico prévio das teorias de Charles Pierce. Em suma, a obra lança um pouco de luz no terreno movediço das comunicações visuais, dando conta dos signos visuais em toda extensão e profundidade. É uma ótima sugestão para situar o pesquisador que deseja adentrar-se com profundidade nas questões das representações e imagens.

Referências bibliográficas:

NÖTH, Winfried; SANTAELLA, Lúcia. Imagem: Cognição, Semiótica, Mídia. São Paulo: Iluminuras, 1998.


Analise semiótica do filme Bonequinha de Luxo de Blake Edwards

O filme “Bonequinha de Luxo”, tem roteiro baseado na obra do célebre escritor Truman Capote. O drama de 1961, se passa na cidade de Nova York e tem como atores principais Audrey Hapburn na pele de Holly Golightly e George Peppard como Paul Varjak. O longa conta com direção de Blake Edwards.

Que o filme é um signo isso não se deve ter duvidas. Neste trabalho analisaremos semioticamente alguns efeitos interpretativos em mentes reais ou potenciais da primeira cena do filme.

Interpretante dinâmico: No instante que o filme se depara com o nosso representâmen ele desperta em nossa mente efeitos de calmaria, do minimalismo presente na roupa de Audrey Hepburn, da melancolia das ruas vazias ao amanhecer, da visão dos óculos escuros que escondem as olheiras dela após a escuridão da noite, por trás dos mistérios e da enigmática atmosfera de Nova York nos anos 1940. Estes são fatores que a imagem do signo filme, efetivamente produz em nossa mente.

Interpretante Imediato: No filme, podemos indicar como interpretante imediato a música Moon River (canção que faz parte da trilha sonora composta por Henry Mancini), no qual esta musica, faz com que se transpareça todo apelo romântico que a trama sugere, refletindo o ambiente despretensioso da sonhadora personagem Holly Golithly. Tanto na letra como na melodia o espectador desenvolve a sensibilidade romântica que a história propõe passar no filme.

Interpretante energético: Corresponde a uma ação física ou mental, que exige um efeito de energia, este de alguma espécie. A joalheria Tiffany & Co. e a Maison Givenchy são índices de sofisticação e que chamam nossa atenção, e nos movimentam na direção do objeto que eles indicam, que neste caso pode ser elegância e requinte para as mulheres clássicas.

A atriz Audrey Hepburn correspondeu muito bem ao papel encenado, pois, após o filme, a Maison Givenchy passou a estar presente em todos os figurinos que ela aparecia em cena, de qualquer filme, gerando assim uma mudança de hábito no quesito figurinista dos filmes. 

Portanto, a representação mental da Maison Givenchy no contexto de elegância e sofisticação penetrou na representação prática, através de experiência concreta encenada por Audrey Hepburn.  Quando entrava na loja, Audrey dizia que tudo parecia calmo e o mundo parecia maravilhoso, entendemos que isto provocou um comportamento diferente nos consumidores, comportamento este que pode ser relacionado a propaganda de hoje em dia.

Interpretante Lógico: se realiza no interpretante, por meio de uma regra associativa de pensamentos e raciocínios, caracterizando assim o significado que resultou do processamento lógico do pensamento sobre o signo filme e conteúdos apresentados nele. Por exemplo, temos de saber um pouquinho sobre a moda clássica dos anos 40 e internalizar essa convenção para entender o que o pretinho básico usado por Audrey significou no filme. Nesse caso, o pretinho revelou uma simbologia clássica de ingenuidade e ao mesmo tempo mistério e deslumbramento.

É importante entender e internalizar também que a Maison Givenchy é tão tradicional quanto Audrey para os entendedores de moda e cinema respectivamente. Porém aqueles que não entenderem sobre os assuntos correlacionados não saberiam fazer uma interpretação correta.

Interpretante Emocional: Esta sempre presente em qualquer apresentação e é caracterizado pelo efeito com qualidade de sentimento que o signo está apto a provocar em um interprete, no caso, telespectador do filme. Geralmente os ícones tendem a produzir esse tipo de interpretante com mais intensidade, como a musica.

No filme a musica Moon River trás qualidades de vários sentimentos para o primeiro plano. Os sentimentos mais explícitos são de melancolia, tristeza e solidão.

Quando escutamos a música Moon River sentimos toda a emoção do romantismo clássico, a perfeita comunhão da melodia com a poesia da letra, esta que, provoca inevitavelmente emoções de boas lembranças, de calma, do belo inexplicável e do bom gosto.

A música fala de dois amigos, que caminham juntos entre caminhos tortuosos, mostrando-nos como em seu título Moon River, traduzido Rio de Lua, os momentos sombrios da vida, e assim acaba por enfatizar a elegância de Audrey Hepburn, uma mulher que muitas vezes sozinha, com vestido de festa, ao amanhecer, toma café e aprecia a vida, junto a lastimas e amarguras da vida.

Quali-signo: O preto do vestido é um quali-signo icônico e nos remete a obscuridade, podemos citar também como a escuridão e ao misterioso. Já o branco esmaecido das paredes da loja sugere claridade, simplicidade, neutralidade, por similaridade.

As jóias em prata e cravadas em brilhantes da cena sugerem a luz do dia, brilhando após uma noite de escuridão, o glamour, a luz no fim do túnel, o cintilante aos olhos, o deslumbramento, o brilho do amanhecer.

Sin-signo:  é a propriedade de existir. Vem de singular existir: tudo que ocupa lugar no tempo e espaço e que irradia sentido em outras direções. É o seu caráter físico-existencial que aponta para as outras coisas.

A atriz que existe no tempo e no espaço, emite sinais para uma infinidade de direções: o modo de se vestir (um longo pretinho básico da Givenchy, jóias com brilhantes translúcidos, um lindo óculos Wayfarer  modelo clássico da Ray-Ban), a maneira de falar (sotaque britânico), a língua que fala(inglês), sua aparência em geral.  São todos estes, e muitos outros mais, sinais que estão prontos para significar, latentes de significado.

Legi-signo: se apresenta como uma lei ou idéia universalizada.

 No começo e no fim do filme temos mais uma vez a musica Moon River presente. Esta forma de se utilizar uma musica em cenas especificas possibilita o receptor de identificar o inicio e o final do filme.  A musica ao ser apresentada, é portadora de uma lei que, por convenção, determina que o signo filme represente o começo ou os últimos segundos do filme.

Referencias bibliográficas:

SANTAELLA, Lucia. Semiótica Aplicada. São Paulo: Pioneira, 2002. p. 01-25  (Introdução e Capítulo “Bases teóricas para aplicação”)

SANTAELLA, Lucia. Semiótica Aplicada. São Paulo: Pioneira, 2005. p. 85-97 (Capítulo “Matisse: uma semiótica da alegria”)

Filme: Bonequinha de Luxo. Drama. Direção: Blake Edwards. Estados Unidos, 1961.


Os signos no texto jornalístico

Sem a existência dos signos, não seria possível um saber consciente de coisa alguma.

O signo é uma palavra capaz de representar a realidade. Composto por significante e significado.

O significado é o mesmo que o sentido, assunto ou ideia. É o pensamento que esta por trás do significante e também caracteriza a parte que a gente entende sobre algo. Ele varia de acordo com o contexto e se caracteriza pelo que se deseja transmitir.

O significante é a aparência e parte material do signo. Ele precisa estar sempre junto com o significado para ser um signo e só então significar algo.

Há pouco tempo atrás a ministra Dilma Rousseff foi flagrada por paparazis segurando uma linda bolsa de 30 mil reais, modelo clássico denominado “Birkin”, da marca francesa Hermés. A bolsa, após ser adornada com couro de cobra, brilhantes e o emblema da marca Hermés, passa a ter o signo de ostentação abundante, exercido pela personagem Dilma. O significante então se caracteriza como a aparência da bolsa signo.

Na elaboração de um texto jornalístico, a aparência de um signo ou mais, simboliza uma idéia, que vem a ser o significado e sem o domínio destes conceitos, não se faz uma plena comunicação.

O signo pode ter mais que um significante, por vezes, mesmos significados contraditórios, ou antagônicos, estes que, serão esclarecidos somente através do contexto do texto.

No texto jornalístico deve haver uma perfeita correspondência entre signo e coisa, realidade e discurso para que não haja uma má interpretação, ambigüidade ou coisas do gênero.


Subjetividade momentânea

sol e lua

O signo loucura caracteriza a falta da razão. Muitas vezes pode ser confundido com a sabedoria, que graças a louco-sábios, junto a pensamentos julgados inoportunos ou até mesmo modernos para uma concepção atual. As várias facetas em que o signo loucura pode se manifestar são inúmeras e transparecem muitas vezes como uma ambigüidade incompreensiva e sem sentido, que nossos olhos primados pelos índices não nos deixam enxergar. 

A loucura é um estado no qual o individuo vê o mundo a sua maneira realmente como ela é, ou não; variando conforme sua subjetividade momentânea de ser feliz.


Dualidade entre razão e verdade

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Nau dos Loucos

A verdade para os sãos de mente é a mera casualidade e representa o igual. A loucura então chama a atenção refletindo os valores novos, é ousada, é a exceção.

 Em forma de uma realidade inconsciente, os tais loucos em questão, se reconhecem e se identificam com o signo que traduzem. Sobretudo, realizam à sua maneira a condição humana, como a ovelha negra que quer se libertar das amarras da sociedade que não possui os ouvidos certos para compreendê-los, e gostaria de mandá-los para longe assim como a Nau dos Loucos (pintura de Hieronymus Bosch).


Semiótica da loucura

falta de razão

A semiótica da loucura nos mostra como um signo tão complexo e que de certo modo taxado de forma ruim pode se mostra ao mesmo tempo uma coisa boa, assim como uma fonte de sabedoria e que impulsiona e move o mundo.

De mãos dadas com os valores novos, a loucura em signo transparece a realidade da exceção, e quando possuí o olhar da primeiridade enxerga longe os supostos ideais a serem seguidos em prol do triunfo e da superação.

A loucura então de fato se liberta da tradição, caracteriza o grão de sabedoria e de ousadia. Na Grécia exprimiam vigorosamente que através da loucura chegaram os maiores bens, disse Platão. Em suma, a semiótica da loucura que abordamos, não abrange o distúrbio mental ou psíquico, mas sim uma maneira bela de se viver a vida.


Excentricidade x Loucura

No mundo de hoje, os ricos e privilegiados pelo dinheiro, e de alguma forma anormais devido a vários devaneios que demonstram, são caracterizados “excêntricos” e aqueles desfavorecidos que transparecem muitas vezes os mesmos sintomas mentais anormais, entretanto, pobres, humildes são os “loucos” que a sociedade não quer ouvir.

            O trecho da música “Com A Boca Amargando” da banda Charlie Brown Jr: “O poço da loucura é muito fundo, no jardim da insanidade cabe eu você e todo mundo”, revela a verdade do signo loucura que em meio a um mundo conturbado por acontecimentos pseudo-apocalípticos como os terremotos e tsunamis, nos mostra que o ato de enlouquecer pode se apoderar de qualquer um, independente de dinheiro ou classe social.

            Jéssica Cegarra