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Harleyros do Blues

Criadas por dois jovens: Arthur Davidson e William S. Harley em 1903, (uma das marcas mais cobiçadas pelos amantes de motocicletas), as centenárias Harley-Davidson nasceram da ideia de se instalar um motor num quadro de bicicleta. Desde então ganhou adeptos apaixonados pelo mundo todo.

Neste cenário Harleyro temos a Blues Custom: uma banda de Blues de Rio Preto que possui integrantes motociclistas amantes do estilo Harley de ser. A banda tem 6 anos de estrada e milhares de Km rodados.

Confira a seguir uma aventura musical com o ronco inconfundível das motocicletas HD e o melhor do Blues em uma entrevista exclusiva:

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Integrantes:  Maurício Scaglioni (batera), Marquinho Munhoz (guitarra e gaita), Digão Perussi (baixo) e Roger (vocal e guitarra)

A banda tem quanto tempo de estrada?

A Blues Custom foi formada em 2008 em São José do Rio Preto, e desde então estamos rodando. Somos em quatro inegrantes: Roger (vocal/guita), Marquinhos (Guita/gaita), Maurício (batera) e Digão (baixo).

Qual é o balanço que vocês fazem desse tempo todo?

Está sendo muito bom! Percebemos uma forte evolução musical do grupo neste período. Somos uma banda democrática: sempre conversamos, expomos nossas opiniões, arranjos e composições em grupo, sempre dispostos a ouvir opiniões diversas em nome de um resultado musical que descende de todos integrantes. Passamos por vários obstáculos e continuamos de pé, em frente. O espírito da Blues Custom é este: continuar, mesmo vivendo uma realidade onde o Blues e Rock and Roll têm pouco espaço em nossa cultura. O público nos recebe sempre bem, seja na Capital ou no interior, pela diversidade de influências do nosso som, que vai do Heavy Metal à MPB, passando pelo Punk Rock e Rithm and Blues, são as influências que cada integrante traz à Blues Custom.

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Vocês já rodaram quantos km juntos mais ou menos?

Rs…  Não fizemos esta conta, mas temos certeza que de que nunca vai ser o suficiente… temos a Blues Custom, as motos e uma grande amizade. Estamos sempre rodando de um jeito ou de outro.

Como foi tocar no MOTOROLETE do ano passado? Comente sobre a energia do publico e sobre a sensação de tocar no meio motociclista.

Foi muito legal! Nosso som tem tudo a ver com a estrada, motociclismo viagens e aventura. Nesse evento encontramos tudo isso a vibração, a energia das pessoas cantando e dançando com a gente. Nos sentimos honrados de poder fazer parte desta grande confraternização que é o Motorolete. O que pouca gente soube é a aventura pouco antes do show… rs… na noite anterior ao show, nosso baixista, o Digão, estava voltando do Paraná de carro e por volta de 1 hora da manha sofreu um acidente, nada grave mas o carro ficou totalmente destruído e em um local sem movimento e sem sinal de celular. Só conseguiu ajuda pra sair de lá as 7 horas da manhã e so conseguiu chegar em Rio Preto as 13horas. chegou subiu no palco e tocou no Motorolete.

ImagemA banda durante a apresentação no evento Motorolete 2013, realizado no clube de campo do Automóvel Clube em junho de 2013

Como é o repertório de vocês? Possuem músicas próprias?

Nosso foco é a composição. A Blues Custom é uma banda autoral e tem uma série de composições gravadas e em produção, além de executar músicas consagradas de grandes compositores, desenvolvemos arranjos de cada música, buscando nossa identidade musical e procurar divulgar ao público músicas que não estão no mainstream, mas que são memoráveis.

Qual é o conceito por trás das letras?

Acreditamos que não temos um conceito pré-estabelecido para nossas letras. No entanto gostamos muito de viagens, de motos, carros vintage, motores, estrada. Um cenário típico do mundo do Blues nos atrai também: “Whiskey and women”, que é o nome de uma música do John Lee Hooker, sintetiza o universo em três coisas fundamentais: o bar, as mulheres a estrada. Também escrevemos nossas letras inseridos numa realidade brasileira, que é um pouco diversa da norteamericana.

Quais motos vocês têm? Nome, marca e cilindrada. Vocês apelidaram suas motocicletas com nomes próprio? Porque escolheram esses nomes?

Rodamos com uma Road King, uma Heritage e uma Blackline, da Harley-Davidson e as três tem motores com 1584cc. Também em quatro rodas um Ford Galaxie 500, V8 ano 1973 leva a banda inteira e os instrumentos. É a nossa pedida quando está chovendo. Ou apelidos carinhosos. A Heritage ganhou o apelido de “Melissa” em homenagem à música do Gregg Allman do Allman Brothers, de 1968. A Blackline recebeu o nome de Karen, em homenagem póstuma à vocalista e baterista Karen Carpenter, que com sua bela voz encantou o mundo nos anos 1970.

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O blues é a única estrada seguida por vocês? Ou também tocam outros estilos?

Acreditamos não existir uma linha muito precisa separando o Blues do Rock And Roll e o Jazz. Assim como o Samba, o Blues é descendente das culturas musicais ancestrais africanas e se desenvolveu ao longo do tempo em vários lugares do mundo. Do Samba descendeu a MPB, do Blues e Jazz, o Rock And Roll. Todos têm a fantástica contribuição da cultura afro que transformou a música tonal tradicional em algo rítmico, pulsante, que contagiou o século 20 e mudou a direção da música mundial de até então.

O que veio primeiro? A paixão pela música ou pelo motociclismo?

Acreditamos que foi a música, porque começamos a tocar e compor ainda garotos, conquistamos a guitarra antes da motocicleta!

Como surgiu essa paixão especifica pela HARLEY?

Nossa paixão é pelo motociclismo, pela música e por este estilo de vida. Em especial as motos Custom nos atraem independente da marca, pela própria história da Harley-Davidson, pelas concepções da máquina, do motor, pela idéia da busca da liberdade e do prazer que só uma motocicleta proporciona.

ImagemEntre amigos em visita a concessionária Harley-Davidson® em Ribeirão Preto

Nietzsche tem uma frase que diz “Sem a música a vida seria um erro”. Vocês conseguem relacionar essa frase também ao motociclismo? No caso de vocês o motociclismo e a música andam juntos. Fale sobre isso.

Sem dúvida o filósofo é coberto de razão na sua afirmação. Porém nós, enquanto músicos, seríamos altamente suspeitos para afirmar! E enquanto motoqueiros, podemos dizer que seria um erro viver sem experimentar a vida em duas rodas. Tanto o motociclismo como a música é para nós fonte de lazer e de trabalho, talvez seja esta a mistura “mágica” da vida.

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Entrevista ‘CAD: grind´n´roll em turne Dragon´s Attack Over Brasil’

De passagem por São José do Rio Preto no mês de setembro, a banda da Eslováquia CAD (de grind´n´roll) alegrou os head bangers do interior de São Paulo com a tour “Dragon´s Attack Over Brasil”. A banda conta curiosidades e detalhes da carreira de forma bem humorada em entrevista exclusiva.
Entrevista feita por Jéssica Bárbara Cegarra

Fotos: Mateus Carvalho

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JANO VALÉR: Todas as canções são perfeitas … haha. Cada um de nós é diferente e, portanto, cada um tem sua canção preferida. As músicas mais lentas são minha preferência, porque o som é mais legível e poderoso. Por exemplo a música Pevnost ou Psia krv. Então, temos músicas que dependem mais do texto, como San Juan, Konflikty, Sklenenaveza. Essas músicas são as melhores para concertos onde as pessoas podem cantar tudo com a gente.

2. O que significa o nome da banda CAD?

JANO VALÉR: O nome é escrito de outra forma. É ČAD (Inglês: tchade, alemão: tschade). O nome da banda foi no início “Filhos de Chad”. Depois ficou apenas o Tschad. É simplesmente o país africano, que permanece sempre no último lugar de cada análise do mundo. Se sobre qualidade de vida ou economia. E tivemos a sensação semelhante sobre a nossa posição no cenário da música…

3. Qual era o propósito da banda, quando foi fundada? Quais foram as mais importantes influências musicais?

JANO VALÉR: A banda foi fundada em 1994, mas, naquela época eu era uma criança. Eu só ingressei em 2003. O objetivo era fazer apenas um monte de barulho e gritar muito. Os textos das canções eram agressivos, o som parecia sucata de veículos e o cantou era grito gutural. Nossas influências novamente são diferentes, mas podemos concordar com o IRON MAIDEN, SEPULTURA, SLAYER, RAMONES, MISFITS, ELVIS.

4. Vocês sempre foram em três? Esta é a formação original, foi a intenção de ser um trio?

JANO VALÉR: Sim, a banda sempre foi um trio. O núcleo do heavy metal é percussão, baixo, guitarra e canto. É o que somos não precisamos de mais. Nos realizamos assim, a combinação do som é muito “crua” qualquer coisa mais nos sobrecarregaria. E outra vantagem é que nós três cabemos em um carro pequeno com os instrumentos … haha Na formação original tinha o Stephan (guitarra, canto), Kosticka (bateria), Tichonov (baixo). Barbora só entrou em 1998 e eu em 2003.

5. Desde quando a banda existe? Vocês lançaram muitos álbuns? Todas as canções são protegidas por direitos autorais?

JANO VALÉR: Sim a banda existe desde 1994, como já disse. A discografia é bastante grande: 5 álbuns, 7 split EPs e um split LP. Nós somos uma banda DIY. Todos os álbuns deram muito trabalho. Está tudo aqui: http://bandzone.cz/cad?at=info

6. O que dizem as letras das canções? Qual mensagem vocês gostariam de passar? Vocês compõem juntos?

JANO VALÉR: Sim, compomos todas as músicas juntos. Agora estamos mais velhos e todos têm mais expectativas sobre nossa música. Por isso, o processo para compor é um pouco difícil e não colocamos toda música no álbum. A canção começa com um Riff, o som do tambor enche a sala inteira para a música ser desenvolvida. O texto é sempre uma surpresa. Embora façamos muitas demonstrações de texto são aprovados de acordo com o STEPHAN (vocalista) e obtemos o resultado final apenas alguns dias antes da gravação. Os textos são em sua maior parte sobre as coisas da vida, que nós vivenciamos todos os dias, experiências, doenças e futilidade da sociedade. Então inspiramos muitas de nossas canções em lendas eslovacas, lutas, ladrões e guerras. O que parece insano e um pouco engraçado, mas com muita agressividade.

7. De toda a história da banda, qual é o período do qual vocês mais se orgulham?

JANO VALÉR: Esta pergunta cada um pode responder de forma diferente, mas para mim o melhor é sempre o último álbum. Acredito que a gente pode se dedicar mais e tornar as músicas mais detalhadas. Espero que nossas canções fiquem mais que meio ano nas cabeças. E talvez esperem algo melhor de nós. Se não, alguma coisa já aconteceu durante o tempo …

8. Você vem da Eslováquia. Isto torna as coisas mais fáceis ou mais difíceis para a banda?

JANO VALÉR: A Eslováquia é um país pequeno, um quarto de São Paulo, cerca de 5,5 mil habitantes. A coisa é um pouco complicada para bandas de metal, porque a cena underground é muito pequena, e depois de alguns anos você conhece os fãs pessoalmente. Por outro lado, a gente se sente em casa. Nosso país é um pouco sonolento e tudo leva muito tempo para desenvolver. Muitas bandas desistem rapidamente e apenas as mais fortes sobrevivem. Isso nos dá força para continuar.

9. Vocês têm a oportunidade de viajar pelo mundo e também de conhecer as diferentes realidades dos outros países. Isso pode influenciá-los de algum modo?

JANO VALÉR: Sem dúvida. A influência é que nós sempre nos alegramos com concertos em casa quando voltamos. Cada país é bem diferente, mas no nosso caso onde as músicas estão em eslovaco, é o único lugar onde podemos viver a experiência de os fãs cantarem junto. De resto, nós tocamos em países da Europa Ocidental e na Alemanha ou na França, por exemplo, onde as pessoas não estão interessadas. Nós gostamos de tocar na República Checa, que na verdade são nossos irmãos e a língua é muito similar.

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10. Como vocês publicaram seu trabalho em outros países?

JANO VALÉR: Nos primeiros anos, Stephen foi muito ativo e tem trabalhado com editores underground de todo o mundo, feito e trocado álbuns e EP. Ele conheceu muitos amigos que nos ajudaram como uma banda em concertos no futuro. CAD é conhecido em alguns países, mas esse não foi o resultado esperado. Mais que isso, a internet, youtube e festivais nos ajudam.

11. Pergunta ao guitarrista: você acha que é um guitarrista que canta ou um cantor que toca guitarra?

STEPHAN: Oi. Eu acho que sou um cantor que toca guitarra. É assim, porque ninguém queria tocar guitarra e eu assumi a tarefa. Eu odeio carregar amplificadores e alto-falantes, que são pesados. O cantor vai e sempre carrega sua voz consigo.

12. Pergunta a baixista: qual foi seu encontro mais estranho com um fã?

BARBORA: Oi, esse tipo de encontro acontece com muita frequência e na verdade depois dos shows, quando as pessoas vem até mim. alguns não tem consciência que sua boca está fedendo muito. Eles não sabem que cerveja, cigarro e dança frenética são uma péssima combinação para o hálito.

13. Como vocês reagiram ao desafio de tocar no Brasil. Como isso se tornou possível? Vocês planejaram isso por algum tempo?

JANO VALÉR: Nós já fizemos duas turnês pelo Brasil. Isso é exatamente o caso dos velhos camaradas da cena underground. Alexandre Strambio é um editor, músico e conhece Stephan. Os dois combinaram tudo. A primeira turnê teve 17 concertos e foi muito bom e aventureiro. Desta vez nós quisemos um pouco mais que apenas ver bares e clubes. Desta vez tocamos em somente 9 concertos, mas nós vimos as cataratas do Iguaçu. E valeu a pena.

14. No Brasil, temos dificuldades em encontrar informações sobre a banda. Você pode dizer como tudo começou?

JANO VALÉR: Já disse muita coisa. Basicamente, eles eram muito engraçados nos primeiros anos por que a banda vem de uma cidade pequena que fica ao lado da capital. A gente conhece todo mundo, porque tem apenas 4 mil habitantes lá. Então, todos sabiam que nós tínhamos criado uma banda. É uma longa história, mas a ideia principal é que ninguém sabia nada sobre instrumentos, como fazer música e o que tocar. A gente só queria ser famoso rapidamente e tocar em estádios. Mas como AC DC canta: “é um longo caminho até o topo quando você quer rock and roll!” é realmente muito triste, porque essa música é verdade…

15. Há uma preparação para o show?

JANO VALÉR: O show se desenvolve sozinho depois de alguns concertos. Então encontramos o jeito certo de executá-lo e dar nosso melhor. Depois de cada show nós discutimos detalhes do próximo show fazer as coisas diferentes ou melhores.

16. Geralmente, quando se trata de Brasil, as pessoas só pensam em carnaval, mas não é assim o ano inteiro. O Brasil é como vocês imaginavam?

JANO VALÉR: Não, de modo algum. A gente não tem como imaginar. Tantas pessoas vivem no Brasil e no mundo tudo tantas pessoas diferente que a gente deve olhar apenas para os rostos. Nós estávamos fascinados pela diversidade das pessoas. Mas o país e as cidades são completamente diferentes. A gente só recebe notícias sobre samba, carnaval e que o Brasil cresce muito economicamente. Nada mais. Por exemplo: um amigo perguntou se fomos aos shows de barco. Ele pensava que o Brasil fosse todo como a Amazônia.

17. Vocês tocam com algum ídolo em particular? Acontece de as vezes vocês convidarem outros músicos?

JANO VALÉR: Organizamos concertos não para nós. Somos convidados a concertos e às vezes acontece de nós tocarmos com uma banda maior. Por exemplo, tivemos alguns shows com a Napalm Death. Isso vale também para Festivais. Com Obscene Extreme ou Brutal Assault aprendemos muita coisa.

18. Qual é a diferença da cena musical da Europa para o Brasil em termos de música pesada? Como o underground de lá é comparado ao daqui?

JANO VALÉR: Isto é, por exemplo, muito semelhante. O sistema de comunidade e cena atua em todos os países por camaradagem e fanatismo por música rock and roll. Na Eslováquia as bandas ainda acham que você precisa do mundo ocidental, mas no Brasil, a gente toca, dança se diverte e encontra muitas pessoas.

19. É a primeira vez que vocês tocam no Brasil?

JANO VALÉR: Não, é a segunda vez. A primeira turnê foi há 9 anos em 2004.

20. Quais são planos e expectativas para a banda em 2014?

JANO VALÉR: Até ao ano 2013, nós faremos apenas concertos. Temos ainda outra banda com o nome de Vandali. É uma banda de rock pesado. E 2013 pertence à banda Vandali. Mas em 2014, o CAD vai completar 20 anos. Nós queremos lançar um álbum. Espero poder publicar algumas músicas ainda desconhecidas. Nós ainda estamos pensando em como o concerto deve ser.

21. Vocês foram bem recebidos pelos brasileiros? Vocês gostaram da hospitalidade dos brasileiros? Como foram os shows no Brasil? Qual foi o melhor desta turnê?

JANO VALÉR: Embora os shows em 2004 tivessem mais gente, desta vez foi mais intenso. As pessoas eram poucas, então o contato era direto e cheio de energia. O melhor concerto foi em Presidente Prudente, onde nos encontramos com velhos conhecidos do Subcut.

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Entrevista – Eduardo Alves de Almeida

 Eduardo Alves de Almeida é formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (1998), fez doutorado direto em Bioquímica no Instituto de Química da USP (2003) e pós doutorado também na área de Bioquímica na Universidade de Córdoba na Espanha (2005). Atualmente é professor de Bioquímica e Toxicologia Ambiental na UNESP de São José do Rio Preto.

Eduardo Alves de Almeida apresentando trabalho em congresso de Bordeaux na França

Eduardo Alves de Almeida apresentando trabalho em congresso de Bordeaux na França

A sua dedicação a química se prende aos fatores da bioquímica molecular ou a qualquer outro animal especifico? Já que a bioquímica é diferente em relação aos diferentes seres vivos. Os aminoácidos essências no homem são diferentes doa aminoácidos dos outros animais.

Minhas pesquisas envolvem estudar os efeitos nocivos de diferentes classes de poluentes ambientais no metabolismo de animais aquáticos. Baseado em conhecimentos gerais sobre o metabolismo celular, visamos observar que efeitos, diferentes poluentes exercem no metabolismo dos organismos, através de ferramentas bioquímicas. Estas variações no metabolismo podem ser úteis no diagnóstico de áreas impactadas por poluentes. Em resumo, você pode coletar um animal num determinado ambiente com suspeita de contaminação, e avaliar alguns parâmetros bioquímicos, a fim de ver se há algum tipo de alteração no metabolismo. Muitas destas alterações podem indicar um quadro de exposição a poluentes ambientais. Paralelamente, tenho estudado também em alguns estudos com humanos, portadores de anemia falciforme, na busca para compreender que prejuízo, estes pacientes apresentam em seu metabolismo em função de possuírem hemácias deformadas.

Quanto à questão dos aminoácidos, todos as proteínas de todos os seres vivos são constituídas dos mesmos 20 aminoácidos básicos. O que acontece é que muitos animais não tem a capacidade de sintetizar todos eles nas suas células, necessitando obrigatoriamente adquiri-los na dieta. Pouco menos da metade dos 20 aminoácidos nós não somos capazes de sintetizar, portanto somos obrigados a absorvê-los na dieta.

“Pouco menos da metade dos 20 aminoácidos nós não somos capazes de sintetizar, portanto somos obrigados a absorvê-los na dieta.”

 

Dentro da bioquímica qual o seu campo de interesse principal? Bioquímica geral ou molecular?

É difícil diferenciar as duas coisas. A bioquímica por si só é molecular. Creio que vc tenha se referido a aspectos gerais do metabolismo ou mais específicos, enfocados em mecanismos de reações específicas. Posso dizer que fazemos as duas coisas. Como falei, minha principal atuação é no campo de se conhecer os efeitos de contaminantes ambientais em animais aquáticos, e fazemos isso através de exposição de peixes, crustáceos, bivalves, anfíbios, etc., a poluentes modelos, sob condições controladas em laboratório, a doses específicas e variados tempos de exposição. Também avaliamos em alguns casos animais coletados no campo. Numa parte dos estudos queremos observar os efeitos gerais dos poluentes em sistemas bioquímicos específicos, como enzimas de desintoxicação, antioxidantes moleculares, lesões à proteínas, ao DNA e às membranas. Mas é comum observarmos ás vezes resultados inesperados, ou contraditórios, ou nunca observados, o que nos leva então a aprofundar um determinado aspecto dessa resposta para entender mais especificamente os mecanismos envolvidos na resposta obtida.

O senhor acredita que a bioquímica possa se prescindir da biofísica? Já que em todas as reações químicas existem fenômenos de troca de energia.  

Na verdade está tudo conectado, e tanto a física, a química, a biologia e a bioquímica, além de outras que poderiam ser citadas, são áreas interconectadas e interdependentes umas das outras.  A termodinâmica, por exemplo, que é geralmente matéria de físico-química, é uma das bases para se compreender as reações bioquímicas. Todas as reações em bioquímica obedecem a primeira e segunda leis da termodinâmica, que falam da conservação e imutabilidade da energia, e é um dos primeiros tópicos que ensinamos dentro da matéria de bioquímica metabólica na faculdade.

 

O Senhor acredita que a bioquímica é muito hermética (fechado em si mesmo) e poderia ser transmitida ao leigo de um modo mais simples? Por exemplo, em vez de falar ph falar o grau de acides.

Existem formas e formas de se tratar a bioquímica. Para se fazer ciência de ponta dentro da área, temos de compreender diversas coisas que não são muitas vezes facilmente assimiladas pelos chamados leigos. Isso se aplica não só para a bioquímica, se for pensar bem, mas para a maioria das disciplinas. Mas com respeito a terminologias, tem algumas que facilitam a compreensão sim, porém é algo muito relativo. No seu exemplo, mudar e falar em grau de acidez ao invés de pH, não sei o quanto poderia facilitar a comunicação. Quanto a mais ácido ou menos ácido sim, mas o leigo tem realmente uma noção do que é mais ácido ou menos ácido? E tem ás vezes questões de que algumas terminologias não são muito adequadas. Pra você ter uma idéia, existem situações onde duas soluções de substâncias diferentes podem ter o mesmo valor de pH, mas diferentes graus de acidez. Compreender isso envolve conhecimentos sobre definição de ácido/base e acidez de substâncias. Outro exemplo, hoje ainda se ouve dizer o termo “graus centígrados” na mídia, sendo que este termo não é o cientificamente correto, sendo o mais correto “graus Celsius”. Então alguém pode me dizer algo do tipo “fazemos isso para facilitar para os leigos”, o que não acho o mais correto. Acho que melhor seria informar a população sobre as coisas corretas, afinal a mídia deveria ter também um papel de informação e atualização dos conhecimentos.

“Hoje ainda se ouve dizer o termo “graus centígrados” na mídia, sendo que este termo não é o cientificamente correto, sendo o mais correto “graus Celsius”.”

 

Muitas vezes os meios acadêmicos são criticados por desenvolverem pesquisas dissociadas das necessidades básicas imediatas. Por exemplo, a bioquímica da obesidade está ainda muito mal estudada. O Sr é a favor de que um órgão central pudesse direcionar o enfoque das pesquisas, no sentido de torná-las mais pragmáticas?

Não acho certo existir um órgão de direcionamento não. Creio que cada um desenvolve as pesquisas dentro de sua paixão e capacidade para isso. Garanto a você que se me obrigassem a desenvolver pesquisas sobre obesidade, eu não desenvolveria uma boa pesquisa, pois esta não é minha especialidade. Mas as coisas funcionam de uma outra forma muito parecida, que são os editais de pesquisa e as avaliações dos projetos por assessores. O dinheiro para pesquisa geralmente vem de editais específicos. Se você entrar no site do CNPq, por exemplo, vai ver uma série de editais abertos para financiamento à pesquisa. Esta é uma forma de mais ou menos direcionar o dinheiro público para o desenvolvimento de pesquisas de maior interesse. Assim, aqueles pesquisadores que tem condições de desenvolver pesquisa dentro da chamada do edital, submetem propostas que serão então avaliadas por especialistas na área que recomendarão ou não sua proposta para o órgão do governo, para que o dinheiro seja liberado ao pesquisador ou não. Depois a cobrança é feita na forma de relatórios e publicações geradas na pesquisa. Os agentes financiadores de pesquisa nunca liberam dinheiro a um pesquisador antes de avaliar qual é a proposta, sua pertinência, grau de experiência do pesquisador na área, se tem infra-estrutura disponível, e assim por diante.

O senhor concorda que o maior responsável pela não motivação dos estudantes durante a graduação terem uma transmissão passiva de conhecimentos, o que os leva a crer que tudo já esta resolvido?  A simplificação didática não sacrifica a dinâmica dos conhecimentos?  Os bons de datas na realidade são nocivos?

Creio que os bons professores não se aplicam a esta descrição. E aí, neste caso, sua afirmativa pode ser correta.  Geralmente disciplinas que geram desinteresse, é porque tem algum problema, e deveriam ser revistas. Creio que em cursos compromissados com sua função formadora, isto deva ser sempre trazido para discussão. O que posso fazer, é falar apenas das minhas aulas, onde todo semestre busco trazer novas informações, aplicações e exemplos práticos e assim por diante. Outra questão sobre desinteresse, é que cada um tem seu próprio objetivo numa faculdade, ou pelo menos desenvolve isso ao longo do curso. Eu por exemplo, na graduação detestava Botânica, e por melhor que fosse o professor, nunca consegui desenvolver interesse suficiente para me aprofundar nessa área. Então creio que isso é algo que nunca vai mudar, sempre vão existir as aulas legais, as chatas, as motivantes e as sonolentas. Nas minhas aulas trabalho muito também a questão de que estamos ali para dar a base. Aulas de graduação no meu entender vão muito mais do interesse do aluno do que do esforço do professor.  E no meu caso não compreendo o termo “simplificação didática”, pois aprofundo ao máximo o conteúdo, de acordo com os livros da área. Claro que sempre há como aprofundar ainda mais, mas isso são temas para especializações futuras, ou pós-graduação, onde o aluno pode ter oportunidade de aprofundar tópicos avançados. Não dá para se aprofundar demais numa disciplina de bioquímica de ácidos nucléicos quando pode ser que na verdade mais da metade da turma está no curso querendo se especializar em ecologia de morcegos, por exemplo, e está ali só para cumprir carga horária.

Como anda o desenvolvimento da bioquímica no Brasil? E o que falta ao Brasil para desenvolvê-la ainda mais? O senhor acredita que a maior deficiência da pesquisa em bioquímica do Brasil é devido da falta de recursos materiais ou humanos?

A bioquímica no Brasil não vai tão mal assim. Temos diversos estudos que são referencia e modelos internacionais. O número de publicações na área é um dos mais expressivos em ciência no Brasil, e creio que temos condições para concorrer, ou pelo menos acompanhar (já que não gosto da palavra concorrência) de igual para igual com países desenvolvidos. Realmente o que falta são recursos principalmente materiais, pois recursos humanos de qualidade estamos produzindo aos montes. Enquanto o Brasil investe cerca de 1% do que arrecada em pesquisa, os países líderes investem 10%. Mas as coisas aos poucos estão melhorando. O que acontece é que estamos no Estado de São Paulo, que é responsável pela maior parcela de produção científica do Brasil. Neste contexto, acho que falta é realmente mais dinheiro para investir e alavancar a ciência em outras partes do país.

“O número de publicações na área é um dos mais expressivos em ciência no Brasil, e creio que temos condições para concorrer, ou pelo menos acompanhar (já que não gosto da palavra concorrência) de igual para igual com países desenvolvidos.”

 

O senhor endossaria afirmativa de que a eterna desculpa de falta de recursos é a confissão de falta de criatividade?  Afinal as grandes descobertas foram feitas a partir de acontecimentos banais, haja vista a penicilina, a lei da gravidade ou mesmo a teoria da relatividade.

Os pesquisadores brasileiros estão entre os mais criativos do mundo, então não concordo com essa afirmativa. Imagina que nos países desenvolvidos, as pessoas têm técnicos especializados em seus laboratórios só para compra de materiais, para lavagem de materiais usados, e que usam muito material descartável nas pesquisas, o que acelera muito o andamento dos projetos. Aqui não temos técnicos, temos que lavar materiais e reaproveitar, ganhamos menos e temos menos recursos financeiros para a pesquisa, e mesmo assim conseguimos desenvolver projetos de renome internacionais. Isto tudo graças a criatividade e talvez imensa paciência e bom humor dos brasileiros.

O senhor acredita que a mentalidade de colonizado prejudica ou inibe a nossa criatividade?

É algo que está enraizado na nossa cultura e que não mudará facilmente. Mas acho que não prejudica nem inibe a criatividade. Na verdade acho que até contribui para que tenhamos ainda mais orgulho do que é produzido aqui.

Porque as universidades brasileiras dão as costas para a sociedade?  O ensino médio em São José do Rio Preto é da pior qualidade e a UNESP nunca pensou em fazer um colégio de aplicação. O que o senhor atribui tal fato? A falta de percepção ou medo de enfrentar o poder econômico dos cursinhos preparatórios?

Essa é uma visão equivocada, a Universidade nunca dá as costas para a sociedade. Existem diversos programas na universidade que são voltadas para a sociedade. No nosso curso, por exemplo, temos diversos programas de capacitação de docentes de química do ensino fundamental e médio. Os cursos de licenciatura têm trabalhado arduamente para estabelecer convênios com as escolas públicas municipais e estaduais, com o objetivo de melhorar o ensino pela renovação do conhecimento de materiais que são agregados às escolas, e ao mesmo tempo utilizar as escolas como laboratórios na formação dos alunos, o que acaba sendo bom para ambas as partes.

A questão de se criar uma escola de aplicação já é discutida a muito tempo na UNESP, o problema é que não há dinheiro para isso. Temos que lembrar que somos 16 unidades no Estado de São Paulo. O curso de química tem apenas dois técnicos de laboratório, quando achamos que deveria ter pelo menos cinco ou seis, e mesmo conseguir a contratação de um é algo extenuante e tem sido impossível, quem dirá a criação de uma escola de aplicação. Até mesmo salas de aula já são problema, o que demanda muito jogo de cintura para as pessoas que criam os horários das disciplinas, pois o uso de salas de aulas no IBILCE está no máximo. Precisaríamos mais prédios com salas de aula para graduação, e não há previsão para resolução deste problema. Imagine a construção de escola, com contratação de professores, pessoal administrativo, prédios, etc.

O fato de o senhor trabalhar com critérios de exatidão, ou seja, com valores de erro inferiores a p<0,0001 o tenha motivado a se libertar das amarras cientificas e se entusiasmar por um gênero de musica que é justamente o contrario, ou seja, a ruptura com o convencional e a valorização da improvisação e a tradução livre dos sentimentos de qualquer natureza?

A questão da música na minha vida vem de antes de eu sequer saber o que faria da vida, pois comecei a gostar de rock lá pelos meus 13, 14 anos. Comecei a tocar guitarra com 15, e até os 17 eu ia fazer arquitetura. Fiz Biologia porque arquitetura na época era 14 candidatos por vaga e Biologia apenas quatro. Acho que uma coisa é totalmente independente da outra. A música não me levou a fazer Biologia nem o inverso. Simplesmente esteve sempre no meu sangue e consigo conciliar as duas coisas numa boa. Quer dizer, pelo menos em parte, já que só não posso estar tocando com minha banda porque sou professor aqui em Rio Preto e minha banda é em São Paulo. Se há algo relacionado, é que música é paixão, e a vivo com paixão, então de certa forma pode ser que ela tenha me ensinado a lidar da mesma forma com o que faço na UNESP, ou seja, fazer aquilo que te dá satisfação.

O senhor sendo músico e roqueiro alem de cientista vê muitos paralelos entre a música e a ciência desenvolve? Se sim, quais paralelos seriam esses? 

Infelizmente sou obrigado a dizer que não vejo paralelos em comum. Consigo separar bem as coisas e, acho eu, ser bom com o que faço nas duas áreas. Não consigo achar nenhum meio onde uma pudesse complementar a outra. Tem gente que pinta, e aí pode se especializar em pintura dentro da sua profissão. Outros gostam de leitura, e lêem mais livros sobre sua área de atuação. Eu na UNESP sou bioquímico, dou aula, faço parte de comissões, escrevo artigos e projetos, administro verba de projeto, vou a eventos apresentar trabalhos ou palestras. Em casa ouço meus cds de rock, toco minha guitarra, leio meus livros do Stephen King, faço meus desenhos, coleciono meus bonecos e tranqueiras de filme e música, jogo playstation 2 com meu filho, vou a shows de rock de vez em quando, faço minhas tatuagens. São vidas paralelas que pouco se cruzam, sem nunca uma prejudicar a outra e sem nenhuma prevalência de uma sobre a outra.

Eduardo e sua banda Lastpain no programa Noite Afora da MTV

Eduardo e sua banda Lastpain no programa Noite Afora da MTV

“é que música é paixão, e a vivo com paixão, então de certa forma pode ser que ela tenha me ensinado a lidar da mesma forma com o que faço na UNESP, ou seja, fazer aquilo que te dá satisfação.”