Arquivo do mês: abril 2011

O REINO E O PODER – Uma história do New York Times

Gay Talese, considerado atualmente como um dos expoentes do novo jornalismo, escreveu O reino e o Poder que atualmente é um dos clássicos da historia do jornalismo.

O livro fala das intrigas internas, dos princípios editoriais do jornal, alem de abordar com técnicas descritivas as qualidades incomuns dos personagens da redação, citar casos importantes relacionados as Primeira e Segunda Guerras Mundiais, à recessão de 1929, e reconstituir reportagens de impacto deste mega empreendimento familiar, na qual o autor trabalhou por 12 anos, chamado The New York Times.

O autor conta com detalhes a importância e a historia das famílias Ochs e Sulzberger, (que formaram a dinastia do jornalismo norte-americano) e também menciona muitas pessoas que trabalharam no Times, desde Adolph Ochs, até o ultimo editor retratado, Daniel Clifton, que trabalharam e construíram com amor o jornal mais influente do mundo, famoso por exercer o “quarto poder” e que sobrevive desde a década de 1850.

Para Talese, o patriarca do Times, Adolf Ochs (falecido em 1935) sempre acreditou que “um jornal mantém sua grandeza quando os princípios do lucro são em geral ignorados”, para Ochs, “se você tem informações de qualidade, os lucros virão”. Segundo o autor, até os dias de hoje, o espírito e o caráter de Adolf Ochs estão vivos e representados por seus descendentes, que o sucederam, e carregam o compromisso de “dar a notícia com imparcialidade, sem medo ou favor, independentemente de qualquer partido, seita ou interesse envolvido”.

Talese conta que os jornalistas são aliados importantes da ambição, como voyeurs que vêem os defeitos do mundo, atraem tumultos e invasões. Em sua maioria são homens realistas que não se deixam enganar pelo jogo. Pensam apenas no instante.

O Reino e o Poder é uma obra de 510 páginas, lançada em 1969 nos Estados Unidos e publicado no Brasil pela primeira vez em 1971. A linguagem é sóbria e a leitura pode ser esporadicamente monótona e cansativa devido à intensa gama de detalhes e descrições. Sobretudo caracteriza uma leitura ainda muito atual nos dias de hoje e faz transparecer com clareza mensagens essenciais importantes e lições valiosas para os interessados em abranger os conhecimentos no estudo jornalístico.

Jéssica Cegarra

TALESE, Gay. O reino e o poder: uma história do New York Times. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


Intrigas de Estado

O filme Intrigas de Estado (State of Play, 2009), lançado inicialmente nos EUA e Reino Unido é uma mistura de suspense com drama. O diretor Kevin Macdonald escolheu muito bem o elenco para compor as belas cenas dos 127 min. de duração do filme. O elenco principal conta com Rachel McAdams, Ben Affleck, Russell Crowe, Jason Bateman, Robin Wright Penn, Helen Mirren, Viola Davis, Jeff Daniels, entre outros.

Vale lembrar que o longa constitui uma nova leitura Hollywoodiana de uma série dramática, que teve em seu elenco original Bill Nighy, James McCavoy e John Simm, produzida por Paul Abbott pela TV britânica BBC no ano de 2003. A versão do filme não foge muito da série (que possui 06 episódios de quase uma hora de duração cada um) levando em conta que todos os episódios foram resumidos em 127 minutos. O diretor Kevin Macdonald ao lado do roteirista Tony Gilroy condensa a trama de forma precisa e fiz com que tudo aconteça em um ritmo implacável.

Tudo começa com a noticia da morte de uma assistente do parlamentar Stephen Collins (Ben Affleck), a linda Sonia Baker. O jornal “The Washington Globe” coloca o jornalista Cal McAffrey (Russell Crowe) juntamente com Della Frye (Rachel McAdams) (que trabalha na parte online do jornal) para investigar o crime. Cal irá investigar a historia a fundo.

Após a notícia da morte de Sonia Baker, todos cogitam a hipótese de suicídio, posteriormente, descobrem que fora um assassinato. Falava se em um caso amoroso, tudo sempre um toque de sensacionalismo para apimentar, mas na realidade não havia nada muito investigado na mídia. Não se sabia se a imprensa estava interessada em criar polemica ou investigar o caso.

No entanto, há a existência de um empecilho, um conflito de valores. Sim, Cal é amigo de Stephen, isto se torna um problema ético. Dessa maneira há o envolvimento do jornalista com a fonte e o que poderia vir a favorecer o congressista, o faz pensar em passar o caso para outro colega investigar. Assim Stephen não sabe quando esta falando com seu amigo ou com um repórter investigativo.

Em meio à trama (de ambientação estadunidense) surge também um conflito muito atual: a mídia impressa versus a mídia online, ou seja, o que pode vir a ser um dia a falência dos jornais. Cal é um típico profissional da mídia impressa: investigador, de faro apurado, bons contatos, sempre na mesma mesa, com o mesmo computador há 16 anos, onde passa dias procurando provas e fazendo pesquisas detalhadas, para colocar algo de concreto no veiculo de comunicação em que trabalha. Cal diz que são os jornais que fazem as matérias investigativas mais apuradas e contundentes.

Nesse contexto, entra a blogueira Della (uma jovem aprendiz de repórter, inexperiente), ela representa a modernidade, a contemporaneidade e o entusiasmo quando faz reportagens para postar no site do Washington Globe (jornal no qual Cal é veterano). Cal é a representação do antigo bom e velho jornal, já Della faz transparecer o novo e o moderno, a era do webjornalismo digital. Ela então passa a aprender jornalismo à moda antiga com Cal, deixando de ser apenas uma blogueira para ser uma jornalista de verdade.

O filme aborda também outro fator que o jornalismo atual vive: os conglomerados de mídia. A chefe do Washington Globe (pertencente a uma grande corporação em prol de mai lucros que conteúdos), Cameron Lynne (Helen Mirren), está sempre recebendo reclamações dos donos, que querem mais resultados nas vendas. Ela faz uma ponte entre a redação e o topo da hierarquia da empresa, tentando conciliar interesses. A corporação em questão não vê a importância do trabalho dos jornalistas, que é um trabalho muito detalhista, caro e algo que a versão online não minúcia corretamente, apenas condensa.

Intrigas de Estado não foge muito da realidade. Fala de problemas atuais, traição adultério, da contratação de empresas privadas para lutar no Iraque, falência da mídia impressa, a nova versão do jornalismo, conflito de interesses, ética, etc. O elenco, a direção, tudo entra em sintonia e faz a trama não fugir da série e nem se tornar algo chato. Russel Crowe representa divinamente o papel de um jornalista que se dedica de corpo e alma as investigações, em prol da sempre da verdade, a base fundamental do jornalismo.

Jéssica Cegarra


Insatisfação e felicidade

Realmente a insatisfação sempre esteve presente nas vidas humanas. Desde os primórdios as pessoas só pensam no que lhes é favorável, e a vida segue com a grama do vizinho aparentando ter um verde mais fashion que o seu [risos].

No caso das relações amorosas, nosso querido poeta modernista Carlos Drummond de Andrade, (marcado pela poesia social e irônica), retratou de modo ligeiramente cômico o fato, sem deixar de lado um coeficiente importante de solidão no poema A Quadrilha:

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história.

Joaquim talvez tenha sido o menos favorecido da historia, pois, a longo prazo o amor o matou. De qualquer maneira todos os outros personagens seguiram suas vidas, sem o amor desejado e mesmo assim foram felizes de formas diferentes. Está ai o segredo. Bertrand Russel, chamado muitas vezes de profeta da vida racional, afirma que “Não possuir algumas das coisas que desejamos é parte indispensável da felicidade.”

Emmanuel Kant como o último grande filósofo dos princípios da era moderna, nos deixa claro que “A felicidade não é algo que pode ser adquirido depois de alcançar algo. A felicidade não é um ideal da razão, mas sim da imaginação.” Na estrada na vida, existem caminhos diferentes para o encontro com a felicidade. A rota perfeita nenhum GPS atual poderá nos mostrar…

Há aqueles que são felizes sem coisa alguma, enquanto outros muitos são infelizes possuindo tudo. Possuir tudo nunca foi sinônimo de felicidade para o Pequeno príncipe. Para ele não há nada no mundo melhor que contemplar a rosa que o cativou (sim, as outras rosas eram vazias e foi a ela quem ele regou e a abrigou com o para vento), valorizar os amigos, ver o por do sol, estes que são momentos felizes e efêmeros e, sobretudo ameaçados de próxima desaparição. “Só as crianças sabem o que procuram, disse o principezinho. Perdem tempo com uma boneca de pano, e a boneca se torna muito importante, e choram quando a gente a toma… – Elas são felizes” conta o principezinho.

O ensaísta romântico François Chateaubriand reforça esta idéia quando cita “A verdadeira felicidade custa pouco; sendo cara, é porque a sua qualidade não presta.” No caso das pessoas é muito importante lembrar que “a felicidade é um sentimento simples; você pode encontrá-la e deixá-la ir embora, por não perceber a sua simplicidade” afirma verdadeiramente Mário Quintana.

Jéssica Cegarra