Sete em um

Cada aluno propagandista deveria fazer uma propaganda e conseguir vender um objeto absurdo. O importante era vender e não o que ia vender.

Houve aluno que tentava vender bananas descascadas, fósforos riscados, canetas sem tinta e por incrível que pareça, houve até um aluno que tentou vender a alma pro diabo. Cada aluno imaginava um absurdo e não esquecia a ordem do professor.

O importante é a propaganda e não o que vai ser vendido.

Como cada um imaginava vender alguma coisa, eu resolvi fazer uma propaganda para vender um professor. No cartaz, escrevi com letras destacadas: Vende-se um professor. Abaixo com letras menores, escrevi: Promoção! Você compra um professor e leva sete profissionais de brinde!!!

Quando apareceu o primeiro comprador ele por interesse ou curiosidade perguntou:

Quais são os sete profissionais que levarei de brinde?

Um arquiteto, um escultor, um amigo, um líder, um idealista, um soldado e um herói.

Fui logo explicando ao comprador:

Você leva um arquiteto porque o professor projeta as colunas do amanha, leva um escultor porque o professor trabalha o duro bronze da realidade; leva um amigo porque o professor vibra em devoção aos seus alunos, leva um líder porque o professor é um exemplo de luta e gloria na sua juventude, leva um idealista porque o professor sonha e acredita em dias melhores; leva um soldado porque o professor luta e defende seus alunos da ignorância e arrogância do governo.

Emocionado o comprador pergunta:

E o herói?

Respondi na certeza de ter feito uma boa venda. Você leva um herói, porque um professor dá a vida pela educação, quase sempre sem apoio e sem recursos.

Continuação…  (por mim)

 

Porque você quis vender o professor?

Acredito que este professor pode ser de mais valia para outra pessoa.

Você pensa que ele não tem mais nada para ensinar a você?

Pelo contrário, eu lamento ter que vendê-lo, mas seria egoísmo não passar adiante algo tão valioso.

Algo tão valioso tem preço?

Por ser valioso, o professor tem um preço muito elevado. Afinal o mundo todo é regido pelas leis do mercado. Além do mais, o professor tem sua família para sustentar, além da necessidade de um aperfeiçoamento contínuo.

O comprador tem que satisfazer algum tipo de exigência ou basta oferecer um bom valor?

Quem vende um bem valioso, assume responsabilidade pelo seu destino.

Desculpe-me, mas você não está sendo contraditório? Na economia de mercado o balizador é o valor.

O senhor me desculpe, mas o seu equívoco me surpreende. O senhor pensa que um colecionador venderia um Rembrandt para um traficante, independente da oferta? O senhor pensa que um político corrupto possa comprar um Rolls-royce?

O que tem este professor de tão especial para justificar tantas exigências?

Além de me instruir, ele me educou para uma vida plena, me tornando útil a toda a sociedade.

Então quais seriam as exigências?

Que ele possa ser um fator de multiplicação, transferindo o seu saber ao maior número de pessoas por ele fixado. Estas pessoas têm que ser selecionadas por mérito e não por critérios sócios econômicos.

Uma instituição pública, estou certo?

Não necessariamente. Basta ser acessível a todos, proporcionalmente ao poder aquisitivo de cada um. Confunde-se muito público com estatal. Não existe nada mais privado que as universidades públicas. Elas usam o princípio da eficiência para reprimir os menos favorecidos. Só entram quem vem de famílias de alto poder aquisitivo, que podem pagar cursos de línguas, caríssimos cursos preparatórios.

Qual seria o preço do professor?

O compromisso de ele poder ensinar sem influência de terceiros e com um salário no mesmo nível de Juízes e Desembargadores, com uma jornada que lhe permita um aperfeiçoamento contínuo, assinatura de periódicos e viajens de aperfeiçoamento, ano sabático e férias regulares. Só isso!

E o seu lucro?

Eu já me apropriei da mais valia do professor, o seu saber.

Porque você teve este professor á sua mercê?

Há seis anos eu tive o diagnóstico de leucemia. Entre quimioterapia e transplante de medula o que me tornou impossibilitado de me expor a uma infecção. Foram seis anos na bolha do meu quarto, onde meus pais me visitavam com máscara e eu conversava com os amigos através de uma divisória de vidro e um microfone. Agora todos os recursos terapêuticos foram esgotados, termino a faculdade esse ano e então vou viajar.

Vai viajar para se tratar onde? Nos estados Unidos?

Que nada. Eu vou viajar para o outro lado da vida.

E com tudo isso acontecendo você está assim, tão sereno?

E porque eu deveria ficar desesperado. Morrer é ruim? A morte faz parte da vida, me ensinou o meu professor.

O comprador, reitor de uma universidade privada, estendeu-lhe a mão, no que foi seguido pelo menino e, a uma só voz, celebraram – negócio fechado.

P.S.O menino faleceu dois dias depois da venda. O Professor é o Titular de uma cadeira de Sociologia numa universidade do interior de São Paulo.

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Sobre Jéssica Bárbara Cegarra

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