Arquivo do mês: junho 2010

Analise semiótica do filme Bonequinha de Luxo de Blake Edwards

O filme “Bonequinha de Luxo”, tem roteiro baseado na obra do célebre escritor Truman Capote. O drama de 1961, se passa na cidade de Nova York e tem como atores principais Audrey Hapburn na pele de Holly Golightly e George Peppard como Paul Varjak. O longa conta com direção de Blake Edwards.

Que o filme é um signo isso não se deve ter duvidas. Neste trabalho analisaremos semioticamente alguns efeitos interpretativos em mentes reais ou potenciais da primeira cena do filme.

Interpretante dinâmico: No instante que o filme se depara com o nosso representâmen ele desperta em nossa mente efeitos de calmaria, do minimalismo presente na roupa de Audrey Hepburn, da melancolia das ruas vazias ao amanhecer, da visão dos óculos escuros que escondem as olheiras dela após a escuridão da noite, por trás dos mistérios e da enigmática atmosfera de Nova York nos anos 1940. Estes são fatores que a imagem do signo filme, efetivamente produz em nossa mente.

Interpretante Imediato: No filme, podemos indicar como interpretante imediato a música Moon River (canção que faz parte da trilha sonora composta por Henry Mancini), no qual esta musica, faz com que se transpareça todo apelo romântico que a trama sugere, refletindo o ambiente despretensioso da sonhadora personagem Holly Golithly. Tanto na letra como na melodia o espectador desenvolve a sensibilidade romântica que a história propõe passar no filme.

Interpretante energético: Corresponde a uma ação física ou mental, que exige um efeito de energia, este de alguma espécie. A joalheria Tiffany & Co. e a Maison Givenchy são índices de sofisticação e que chamam nossa atenção, e nos movimentam na direção do objeto que eles indicam, que neste caso pode ser elegância e requinte para as mulheres clássicas.

A atriz Audrey Hepburn correspondeu muito bem ao papel encenado, pois, após o filme, a Maison Givenchy passou a estar presente em todos os figurinos que ela aparecia em cena, de qualquer filme, gerando assim uma mudança de hábito no quesito figurinista dos filmes. 

Portanto, a representação mental da Maison Givenchy no contexto de elegância e sofisticação penetrou na representação prática, através de experiência concreta encenada por Audrey Hepburn.  Quando entrava na loja, Audrey dizia que tudo parecia calmo e o mundo parecia maravilhoso, entendemos que isto provocou um comportamento diferente nos consumidores, comportamento este que pode ser relacionado a propaganda de hoje em dia.

Interpretante Lógico: se realiza no interpretante, por meio de uma regra associativa de pensamentos e raciocínios, caracterizando assim o significado que resultou do processamento lógico do pensamento sobre o signo filme e conteúdos apresentados nele. Por exemplo, temos de saber um pouquinho sobre a moda clássica dos anos 40 e internalizar essa convenção para entender o que o pretinho básico usado por Audrey significou no filme. Nesse caso, o pretinho revelou uma simbologia clássica de ingenuidade e ao mesmo tempo mistério e deslumbramento.

É importante entender e internalizar também que a Maison Givenchy é tão tradicional quanto Audrey para os entendedores de moda e cinema respectivamente. Porém aqueles que não entenderem sobre os assuntos correlacionados não saberiam fazer uma interpretação correta.

Interpretante Emocional: Esta sempre presente em qualquer apresentação e é caracterizado pelo efeito com qualidade de sentimento que o signo está apto a provocar em um interprete, no caso, telespectador do filme. Geralmente os ícones tendem a produzir esse tipo de interpretante com mais intensidade, como a musica.

No filme a musica Moon River trás qualidades de vários sentimentos para o primeiro plano. Os sentimentos mais explícitos são de melancolia, tristeza e solidão.

Quando escutamos a música Moon River sentimos toda a emoção do romantismo clássico, a perfeita comunhão da melodia com a poesia da letra, esta que, provoca inevitavelmente emoções de boas lembranças, de calma, do belo inexplicável e do bom gosto.

A música fala de dois amigos, que caminham juntos entre caminhos tortuosos, mostrando-nos como em seu título Moon River, traduzido Rio de Lua, os momentos sombrios da vida, e assim acaba por enfatizar a elegância de Audrey Hepburn, uma mulher que muitas vezes sozinha, com vestido de festa, ao amanhecer, toma café e aprecia a vida, junto a lastimas e amarguras da vida.

Quali-signo: O preto do vestido é um quali-signo icônico e nos remete a obscuridade, podemos citar também como a escuridão e ao misterioso. Já o branco esmaecido das paredes da loja sugere claridade, simplicidade, neutralidade, por similaridade.

As jóias em prata e cravadas em brilhantes da cena sugerem a luz do dia, brilhando após uma noite de escuridão, o glamour, a luz no fim do túnel, o cintilante aos olhos, o deslumbramento, o brilho do amanhecer.

Sin-signo:  é a propriedade de existir. Vem de singular existir: tudo que ocupa lugar no tempo e espaço e que irradia sentido em outras direções. É o seu caráter físico-existencial que aponta para as outras coisas.

A atriz que existe no tempo e no espaço, emite sinais para uma infinidade de direções: o modo de se vestir (um longo pretinho básico da Givenchy, jóias com brilhantes translúcidos, um lindo óculos Wayfarer  modelo clássico da Ray-Ban), a maneira de falar (sotaque britânico), a língua que fala(inglês), sua aparência em geral.  São todos estes, e muitos outros mais, sinais que estão prontos para significar, latentes de significado.

Legi-signo: se apresenta como uma lei ou idéia universalizada.

 No começo e no fim do filme temos mais uma vez a musica Moon River presente. Esta forma de se utilizar uma musica em cenas especificas possibilita o receptor de identificar o inicio e o final do filme.  A musica ao ser apresentada, é portadora de uma lei que, por convenção, determina que o signo filme represente o começo ou os últimos segundos do filme.

Referencias bibliográficas:

SANTAELLA, Lucia. Semiótica Aplicada. São Paulo: Pioneira, 2002. p. 01-25  (Introdução e Capítulo “Bases teóricas para aplicação”)

SANTAELLA, Lucia. Semiótica Aplicada. São Paulo: Pioneira, 2005. p. 85-97 (Capítulo “Matisse: uma semiótica da alegria”)

Filme: Bonequinha de Luxo. Drama. Direção: Blake Edwards. Estados Unidos, 1961.


Resenha Crítica do livro “Mídias, Máfias e Rock’n’roll” de Claudio Tognolli e do artigo “O jornalismo Literário como gênero e conceito” de Felipe Pena. Versão 2

De um lado Felipe Pena, psicólogo e professor no Doutorado em Comunicação da UFF-RJ. O artigo de Pena traça um quadro evolutivo de cinco épocas distintas do jornalismo. De 1631 aos dias atuais. E sobretudo tenta produzir uma unidade conceitual para o jornalismo literário, este no qual tenta propor uma conceituação. De outro lado esta o jornalista e professor doutor da ECA-USP Claudio Tognolli. Baseado no jornalismo investigativo o livro de Tognolli fala das mídias e das máfias da telecomunicação. O rock é claro entra pela parte dedicada ao jornalismo cultural.

Felipe Pena, no final do artigo conclui que pertinência de pesquisa está nas perguntas, não nas respostas. Firmando que o jornalismo literário, se trata de uma atitude narrativa em que informar e entreter estão misturados em uma singela melodia. Já as conclusões de Tognolli estão camufladas dentre os próprios capítulos. Para Tognolli a solução para o popularesco que se implantou na mídia esta nas obscuras periferias, onde as pessoas costumam se vestir fora de moda.

A corrente de pensamento de Pena varia de Peter Burke, Victor Hugo a Balzac e Stendhal, estes dois últimos, precursores do jornalismo literário. No livro de Tognolli temos citações de Heidegger, Jorge Luiz Borges, Baudelaire, Timothy Leary, dentre outros. Vale ressaltar que ambos citam Nietzsche.

A linguagem do artigo de Pena é acadêmica e concisa porém de fácil entendimento. Entretanto Tognolli narra os fatos de forma mais pessoal e bem clara. Em suma, são grandes obras leitura obrigatória, imprescindíveis para pessoas da mídia de todos os níveis, desde à especialistas, estudantes e curiosos pelo tema.

Referencias bibliográficas:

TOGNOLLI, Claudio. Mídia, Máfias e Rock’n’roll. São Paulo: Editora do Bispo, 2007.

PENA, Felipe. O jornalismo Literário como gênero e conceito. Disponivel em: <www.felipepena.com/download/jorlit.pdf> Acesso em: 10 jun. 2010.


Sete em um

Cada aluno propagandista deveria fazer uma propaganda e conseguir vender um objeto absurdo. O importante era vender e não o que ia vender.

Houve aluno que tentava vender bananas descascadas, fósforos riscados, canetas sem tinta e por incrível que pareça, houve até um aluno que tentou vender a alma pro diabo. Cada aluno imaginava um absurdo e não esquecia a ordem do professor.

O importante é a propaganda e não o que vai ser vendido.

Como cada um imaginava vender alguma coisa, eu resolvi fazer uma propaganda para vender um professor. No cartaz, escrevi com letras destacadas: Vende-se um professor. Abaixo com letras menores, escrevi: Promoção! Você compra um professor e leva sete profissionais de brinde!!!

Quando apareceu o primeiro comprador ele por interesse ou curiosidade perguntou:

Quais são os sete profissionais que levarei de brinde?

Um arquiteto, um escultor, um amigo, um líder, um idealista, um soldado e um herói.

Fui logo explicando ao comprador:

Você leva um arquiteto porque o professor projeta as colunas do amanha, leva um escultor porque o professor trabalha o duro bronze da realidade; leva um amigo porque o professor vibra em devoção aos seus alunos, leva um líder porque o professor é um exemplo de luta e gloria na sua juventude, leva um idealista porque o professor sonha e acredita em dias melhores; leva um soldado porque o professor luta e defende seus alunos da ignorância e arrogância do governo.

Emocionado o comprador pergunta:

E o herói?

Respondi na certeza de ter feito uma boa venda. Você leva um herói, porque um professor dá a vida pela educação, quase sempre sem apoio e sem recursos.

Continuação…  (por mim)

 

Porque você quis vender o professor?

Acredito que este professor pode ser de mais valia para outra pessoa.

Você pensa que ele não tem mais nada para ensinar a você?

Pelo contrário, eu lamento ter que vendê-lo, mas seria egoísmo não passar adiante algo tão valioso.

Algo tão valioso tem preço?

Por ser valioso, o professor tem um preço muito elevado. Afinal o mundo todo é regido pelas leis do mercado. Além do mais, o professor tem sua família para sustentar, além da necessidade de um aperfeiçoamento contínuo.

O comprador tem que satisfazer algum tipo de exigência ou basta oferecer um bom valor?

Quem vende um bem valioso, assume responsabilidade pelo seu destino.

Desculpe-me, mas você não está sendo contraditório? Na economia de mercado o balizador é o valor.

O senhor me desculpe, mas o seu equívoco me surpreende. O senhor pensa que um colecionador venderia um Rembrandt para um traficante, independente da oferta? O senhor pensa que um político corrupto possa comprar um Rolls-royce?

O que tem este professor de tão especial para justificar tantas exigências?

Além de me instruir, ele me educou para uma vida plena, me tornando útil a toda a sociedade.

Então quais seriam as exigências?

Que ele possa ser um fator de multiplicação, transferindo o seu saber ao maior número de pessoas por ele fixado. Estas pessoas têm que ser selecionadas por mérito e não por critérios sócios econômicos.

Uma instituição pública, estou certo?

Não necessariamente. Basta ser acessível a todos, proporcionalmente ao poder aquisitivo de cada um. Confunde-se muito público com estatal. Não existe nada mais privado que as universidades públicas. Elas usam o princípio da eficiência para reprimir os menos favorecidos. Só entram quem vem de famílias de alto poder aquisitivo, que podem pagar cursos de línguas, caríssimos cursos preparatórios.

Qual seria o preço do professor?

O compromisso de ele poder ensinar sem influência de terceiros e com um salário no mesmo nível de Juízes e Desembargadores, com uma jornada que lhe permita um aperfeiçoamento contínuo, assinatura de periódicos e viajens de aperfeiçoamento, ano sabático e férias regulares. Só isso!

E o seu lucro?

Eu já me apropriei da mais valia do professor, o seu saber.

Porque você teve este professor á sua mercê?

Há seis anos eu tive o diagnóstico de leucemia. Entre quimioterapia e transplante de medula o que me tornou impossibilitado de me expor a uma infecção. Foram seis anos na bolha do meu quarto, onde meus pais me visitavam com máscara e eu conversava com os amigos através de uma divisória de vidro e um microfone. Agora todos os recursos terapêuticos foram esgotados, termino a faculdade esse ano e então vou viajar.

Vai viajar para se tratar onde? Nos estados Unidos?

Que nada. Eu vou viajar para o outro lado da vida.

E com tudo isso acontecendo você está assim, tão sereno?

E porque eu deveria ficar desesperado. Morrer é ruim? A morte faz parte da vida, me ensinou o meu professor.

O comprador, reitor de uma universidade privada, estendeu-lhe a mão, no que foi seguido pelo menino e, a uma só voz, celebraram – negócio fechado.

P.S.O menino faleceu dois dias depois da venda. O Professor é o Titular de uma cadeira de Sociologia numa universidade do interior de São Paulo.


Resenha Crítica Comparativa referente ao livro “Mídias, Máfias e Rock’n’roll” de Claudio Tognolli e ao artigo “O jornalismo Literário como gênero e conceito” de Felipe Pena.

Os dois autores em questão trazem contribuições importantes para o desenvolvimento da prática jornalística, ambos trazem exemplos práticos do dia a dia da profissão.

O livro “Mídias, Máfias e Rock’n’roll” de Claudio Tognolli (jornalista e professor Doutor da Escola de Comunicações e Artes-USP) faz referencia a um dos gêneros pioneiros no Brasil, o Jornalismo Investigativo. Além de contar várias histórias insólitas, engraçadas e interessantes da profissão, ele cita o jornalismo quântico, denuncia a máfia dos artistas que compram jornalistas na base da venda de influência e revela a própria paixão musical pelo rock.

Já o discurso de Felipe Pena (psicólogo e professor no Doutorado em Comunicação da Universidade Federal Fluminense), no artigo “O jornalismo Literário como gênero e conceito”, é em prol da produção da conceituação do jornalismo literário. Pena também reflete sobre a questão dos sub-gêneros, e não deixa de enfatizar os relatos orais que foram a primeira grande mídia da humanidade.

Para Tognolli, nossa mídia apagou as fronteiras que deveriam ter sido mantidas e acabou trocando lentamente o popular pelo popularesco. Ele afirma que as respostas estão escondidas em lugares desagradáveis, como a flor de lótus que nasce no pântano. Já Pena, no final do artigo, conclui que não se trata da oposição entre informar ou entreter, mas sim de uma atitude narrativa em que jornalismo e literatura estão misturados. Por conseguinte, para ele o que falta é valorizar a musicalidade, pois ela permanece por muito mais tempo na memória cultural do que a literatura.

Ambos usam de teóricos de peso para contextualizar as obras. Heidegger, Jorge Luiz Borges, Baudelaire, Timothy Leary e o brasileiro Umberto Eco foram citados por Tognolli. Assim como Peter Burke, Victor Hugo, Gerard Genette, Gaye Tuchman e os precursores do jornalismo literário Balzac e Stendhal foram citados por Pena. O filosofo Nietzsche teve seu nome lembrado pelos dois autores em questão.   

De forma lógica e sem ilustrações, as duas obras não exigem conhecimento prévio para entendê-las e atendem a demanda de leitura de leigos e curiosos pelo tema. Tognolli usa de linguagem simples, clara e precisa. Neste quesito Felipe Pena é mais acadêmico porém também de fácil compreensão.

Da política ao jornalismo cultural, estas obras são indispensáveis, para estudantes, profissionais da área e também ótimo manual para leitores. A boa utilização destas, tende a dar frutos positivos como o atingir das metas do bom jornalismo, seja ele literário ou não.

Referencias bibliográficas:

TOGNOLLI, Claudio. Mídia, Máfias e Rock’n’roll. São Paulo: Editora do Bispo, 2007.

PENA, Felipe. O jornalismo Literário como gênero e conceito. Disponivel em: <www.felipepena.com/download/jorlit.pdf> Acesso em: 10 jun. 2010.