Arquivo do mês: janeiro 2010

O Poder da Mídia

O termo mídia começa a ser usado no Brasil na segunda metade do século passado e face ao nosso alto grau de colonização, passamos a grafar uma palavra latina, media, segundo a pronúncia de uma língua não latina, o inglês. Esta tendência é crescente, a tal ponto que falar César Parque, em vez de Cisar Park, soará como incorreção de um menos favorecido. È a vitória da alienação sobre a identidade, do certo contra o errado, acontecimento comum em tempos contemporâneos.

Tornou -se comum destacar o século XX como o marco consagrador do poder da mídia, como atributo do capitalismo moderno. Tendência destituída de qualquer real embasamento, pois o ocorrido no passado mais recente é apenas a explicitação de um fato longevo, dentro de um processo característico do pósmodermo, a dessacralização de todas as atividades. Não existe mais nenhum traço do idealismo Hegeliano, tudo se passa na relação material de troca como previu Marx. Na frase do Milton Friedmam “Não existe almoço de graça”.

Desnecessária a exemplificação, bastando lembrar a adoção pelos seguidores de Lutero, das práticas causadoras da reforma. Não mais se vende indulgências.  Pragmaticamente, se faz reservas dominiais na vida eterna em suaves mensalidades dizimais. Ainda no clima Hegeliano do início do século XX, falava-se da mídia escrita, como o quarto poder da democracia liberal, complementando os poderes executivo, legislativo e judiciário. A imprensa escrita (jornais) e, até certo ponto, a falada (rádio) tentam preservar os hábitos da beatitude, de um passado, mais cultuado do que recordado, pois a lembrança do que nunca houve é envolta no mofo do saudosismo, deveras sensível ao antibiótico da análise histórica.

A comunicação sempre esteve sob o domínio do poder economico, sendo a mídia, desde primitivas eras, a voz do poder econômico. Dos éditos romanos aos telejornais. Do Pravda (jornal da Russia na época comunista, quer dizer verdade) ao New Yorki Times. Das pinturas antigas às novelas televisivas. Tendo no mundo ocidental, o cristianismo sempre se associado ao poder econômico, nada mais lógico que as artes plásticas e a literária, veículos maiores da comunicação nas idades antiga e média, fizessem da religião o principal escopo de suas obras. O renascimento e o iluminismo se entregaram a tarefa hercúlea (de Hercules herói grego) de dar uma dimensão racional, ou mesmo científica, a dogmas e crenças, época em que a censura á liberdade de expressão considerou a oposição como heresia. Punida com inquisição ou fogueira.

A mídia nos tempos modernos pune preventivamente, revivendo a prática grega dos nossos primórdios, o ostracismo, ou a satanização, dos tempos medievais. A informação está subordinada a empresas comerciais, que, como patrocinadores tem exigências bem definidas: número de assinantes, ouvintes ou espectadores e doutrinação, subliminar, por exemplificação ou merchandising.

A parcialidade é disfarçada por atitudes teatrais dos âncoras ou locutores. Cada vez mais se usa o enxovalhamento humorístico, repetindo-se práticas do teatro grego e as sátiras de Racine (Teatrólogo Frances do sec. XVII). A mídia faz presidentes com Sassás Mutema (personagem da novela global que antecedeu a eleição de Collor na qual o PT era gozado na figura do Flavio Migliacio) ou pela beatificação de sindicalistas. Ou os derrubam com caras pintadas, Mônicas Levinsks ou sapatos de Imeldas ou Marias Teresas. Quando a sua voz, a mídia, não consegue discursar a contento, surgem os Lees Oswalds (assassino de John Kennedy), Jackis Rubis (Assassino do assassino do Bob Kennedy) Coronéis e Generais. Tudo isto, é obvio para benefício do povo.

            Não obstante todas as implicações negativas da mídia, na disputa pelo poder, não se pode negar a sua insuperável capacidade educativa. Movida mais pelo chamado comportamento politicamente correto do que por uma necessidade interior, a mídia ainda persuadi a massa no sentido de se enaltecer os programas voltados para o bem comum. São praticas compensatórias, verdadeiros paliativos para atenuar os males maiores cujo tratamento definitivo não interessa a um sistema de poder do qual a mídia sendo sua voz, dele faz parte.

Iniciativas do tipo “esperança da criança” “fundações marinhas em roubo aberto”, pirateiam consciências ingênuas, roubando-lhes este tesouro chamado reflexão. Outras iniciativas procuram colocar um halo de santidade em iniciativas antes tidas como populistas e assistencialistas. Dar sopa aos pobres, com legiões de boa ou má vontade é brega. Arrecadar alimentos em espetáculos beneficentes sob a égide de um homem Bentinho (dos Santos) é reverenciado como ato de grande nobreza. De tal forma, tais campanhas são consideradas meritórias que o simples questionamento das mesmas, é uma heresia sujeita às maiores sansões da mídia inquisitorial.

Mesmo aqueles artistas, atores, cantores e compositores, que ontem ostentavam a bandeira anteimperialismo, hoje não teme outra alternativa que não seja aderir, ou, pelo menos, não combater. A mídia já não circunscreve aos limites da comunicação. Imediata. Ela estendeu seus domínios a gravadoras editoras e divulgadoras de obras de arte. Do binômio rádio e jornal passaram ao trinômio radio jornal e TV, e finalmente, agora, assumem um panteísmo, visando arrebanhar um maior numero de seguidores. Há uma luta incansável para se quantificar um numero de ovelhas, não raro cativadas por promessas de reformas das casas, embelezamentos físico corporais ou simplesmente pelo desfrute da companhia do galã do momento.

O épico “A noite dos desesperados” filme, que se tornou referencia para demonstrar como os meios de comunicação tripudiam e ganham dinheiro, às custas da miséria alheia, hoje não causaria nenhum impacto, pois, vivemos numa atmosfera de banalização da exploração cênica da miséria humana. Chegando-se ao jamais imaginado, de se programar o crime para melhor transmiti-lo pelas câmeras da mídia eletrônica. Flagrantes de subornos são montados, câmaras são instaladas às escuras para exibir às intimidades de celebridades ou as atitudes torpes de autoridades e figuras de projeção. Ganha-se dinheiro conivindo com a guerra, com o genocídio e depois, ganha-se mais dinheiro ainda fazendo-se filmes ou escrevendo livros sobre os horrores escritos a muitas mãos. Brevemente teremos filmes do tipo: a ultima das mil e uma noites em Bagdá, a morte do livreiro de Kabul ou, quem sabe, os Banqueiros de Garanhuns.

Tornou-se impossível nos tempos atuais separar-se mídia e mercado. Já não se sabe se um comentário de um órgão de comunicação tem realmente o compromisso primário de informar ou preparar o consumidor (da noticia) para um determinado beneficio ou prejuízo. Um comentário favorável a um grande conglomerado pode ser apenas um modo sutil de se aumentar a compra das ações de um determinado grupo econômico. Já não são mais especulações. Tais fatos só ganham publicidade, quando atingem dimensões tão grandes que causam crises econômicas internacionais, como a que esta ainda em evolução em todo o mundo. Entre tantos outros fatores, detectou-se um balanço forjado dos lucros de uma grande rede bancária americana.

A propaganda subliminar é impossível de ser caracterizada e, por isso, continua impune. O leitor lê numa aparentemente não pretensiosa Coluna Social – Jantando no famoso restaurante Leopardo, o grande Capitão das Siderúrgicas Ake Batismo com o Ministro da Economia da Argentina Varela Fuentes. No dia seguinte, a página de economia do mesmo jornal, anuncia que o grupo do senhor Ake Batismo, cujas atividades são basicamente siderúrgicas, pretende diversificar seu capital, investindo na indústria de estaleiros. Na mesma página do jornal, lá está um anúncio – Viaje pela Varela Fuentes. A companhia Varela Fuentes que vinha com balanços negativos será procurada vorazmente pelos apostadores da Bolsa de Valores. É claro, que o preço de venda, já foi pré-fixado. O Sr. Ake Batismo gastando uns poucos milhares de reais na “mídia independente” antes de adquirir a Varela Fuentes já aumentou o seu capital de modo incalculável.

Sumarizando, por mais que se queira negar, por mais que se valorize o aforismo de Mao-Tzé-Tung, segundo o qual “a verdade é revolucionaria”, a tão surrada máxima de Goering teima em prevalecer – “a mentira repetida várias vezes, acaba soando como verdade”. Ou, um jargão freqüentemente repetido nas redações dos jornais brasileiros – “se a lenda é mais aceita que o fato imprima-se a lenda”. A independência do comunicador seja ele, jornalista ou locutor, sempre esta limitada pelas fronteiras da sobrevivência, dentro da decantada resposta atribuída a Carlos Lacerda. Solicitado, às vésperas do Natal, a escrever um artigo sobre Jesus Cristo, perguntou ao Editor Chefe – “A favor ou contra?”.