Entrevista – Eduardo Alves de Almeida

 Eduardo Alves de Almeida é formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (1998), fez doutorado direto em Bioquímica no Instituto de Química da USP (2003) e pós doutorado também na área de Bioquímica na Universidade de Córdoba na Espanha (2005). Atualmente é professor de Bioquímica e Toxicologia Ambiental na UNESP de São José do Rio Preto.

Eduardo Alves de Almeida apresentando trabalho em congresso de Bordeaux na França

Eduardo Alves de Almeida apresentando trabalho em congresso de Bordeaux na França

A sua dedicação a química se prende aos fatores da bioquímica molecular ou a qualquer outro animal especifico? Já que a bioquímica é diferente em relação aos diferentes seres vivos. Os aminoácidos essências no homem são diferentes doa aminoácidos dos outros animais.

Minhas pesquisas envolvem estudar os efeitos nocivos de diferentes classes de poluentes ambientais no metabolismo de animais aquáticos. Baseado em conhecimentos gerais sobre o metabolismo celular, visamos observar que efeitos, diferentes poluentes exercem no metabolismo dos organismos, através de ferramentas bioquímicas. Estas variações no metabolismo podem ser úteis no diagnóstico de áreas impactadas por poluentes. Em resumo, você pode coletar um animal num determinado ambiente com suspeita de contaminação, e avaliar alguns parâmetros bioquímicos, a fim de ver se há algum tipo de alteração no metabolismo. Muitas destas alterações podem indicar um quadro de exposição a poluentes ambientais. Paralelamente, tenho estudado também em alguns estudos com humanos, portadores de anemia falciforme, na busca para compreender que prejuízo, estes pacientes apresentam em seu metabolismo em função de possuírem hemácias deformadas.

Quanto à questão dos aminoácidos, todos as proteínas de todos os seres vivos são constituídas dos mesmos 20 aminoácidos básicos. O que acontece é que muitos animais não tem a capacidade de sintetizar todos eles nas suas células, necessitando obrigatoriamente adquiri-los na dieta. Pouco menos da metade dos 20 aminoácidos nós não somos capazes de sintetizar, portanto somos obrigados a absorvê-los na dieta.

“Pouco menos da metade dos 20 aminoácidos nós não somos capazes de sintetizar, portanto somos obrigados a absorvê-los na dieta.”

 

Dentro da bioquímica qual o seu campo de interesse principal? Bioquímica geral ou molecular?

É difícil diferenciar as duas coisas. A bioquímica por si só é molecular. Creio que vc tenha se referido a aspectos gerais do metabolismo ou mais específicos, enfocados em mecanismos de reações específicas. Posso dizer que fazemos as duas coisas. Como falei, minha principal atuação é no campo de se conhecer os efeitos de contaminantes ambientais em animais aquáticos, e fazemos isso através de exposição de peixes, crustáceos, bivalves, anfíbios, etc., a poluentes modelos, sob condições controladas em laboratório, a doses específicas e variados tempos de exposição. Também avaliamos em alguns casos animais coletados no campo. Numa parte dos estudos queremos observar os efeitos gerais dos poluentes em sistemas bioquímicos específicos, como enzimas de desintoxicação, antioxidantes moleculares, lesões à proteínas, ao DNA e às membranas. Mas é comum observarmos ás vezes resultados inesperados, ou contraditórios, ou nunca observados, o que nos leva então a aprofundar um determinado aspecto dessa resposta para entender mais especificamente os mecanismos envolvidos na resposta obtida.

O senhor acredita que a bioquímica possa se prescindir da biofísica? Já que em todas as reações químicas existem fenômenos de troca de energia.  

Na verdade está tudo conectado, e tanto a física, a química, a biologia e a bioquímica, além de outras que poderiam ser citadas, são áreas interconectadas e interdependentes umas das outras.  A termodinâmica, por exemplo, que é geralmente matéria de físico-química, é uma das bases para se compreender as reações bioquímicas. Todas as reações em bioquímica obedecem a primeira e segunda leis da termodinâmica, que falam da conservação e imutabilidade da energia, e é um dos primeiros tópicos que ensinamos dentro da matéria de bioquímica metabólica na faculdade.

 

O Senhor acredita que a bioquímica é muito hermética (fechado em si mesmo) e poderia ser transmitida ao leigo de um modo mais simples? Por exemplo, em vez de falar ph falar o grau de acides.

Existem formas e formas de se tratar a bioquímica. Para se fazer ciência de ponta dentro da área, temos de compreender diversas coisas que não são muitas vezes facilmente assimiladas pelos chamados leigos. Isso se aplica não só para a bioquímica, se for pensar bem, mas para a maioria das disciplinas. Mas com respeito a terminologias, tem algumas que facilitam a compreensão sim, porém é algo muito relativo. No seu exemplo, mudar e falar em grau de acidez ao invés de pH, não sei o quanto poderia facilitar a comunicação. Quanto a mais ácido ou menos ácido sim, mas o leigo tem realmente uma noção do que é mais ácido ou menos ácido? E tem ás vezes questões de que algumas terminologias não são muito adequadas. Pra você ter uma idéia, existem situações onde duas soluções de substâncias diferentes podem ter o mesmo valor de pH, mas diferentes graus de acidez. Compreender isso envolve conhecimentos sobre definição de ácido/base e acidez de substâncias. Outro exemplo, hoje ainda se ouve dizer o termo “graus centígrados” na mídia, sendo que este termo não é o cientificamente correto, sendo o mais correto “graus Celsius”. Então alguém pode me dizer algo do tipo “fazemos isso para facilitar para os leigos”, o que não acho o mais correto. Acho que melhor seria informar a população sobre as coisas corretas, afinal a mídia deveria ter também um papel de informação e atualização dos conhecimentos.

“Hoje ainda se ouve dizer o termo “graus centígrados” na mídia, sendo que este termo não é o cientificamente correto, sendo o mais correto “graus Celsius”.”

 

Muitas vezes os meios acadêmicos são criticados por desenvolverem pesquisas dissociadas das necessidades básicas imediatas. Por exemplo, a bioquímica da obesidade está ainda muito mal estudada. O Sr é a favor de que um órgão central pudesse direcionar o enfoque das pesquisas, no sentido de torná-las mais pragmáticas?

Não acho certo existir um órgão de direcionamento não. Creio que cada um desenvolve as pesquisas dentro de sua paixão e capacidade para isso. Garanto a você que se me obrigassem a desenvolver pesquisas sobre obesidade, eu não desenvolveria uma boa pesquisa, pois esta não é minha especialidade. Mas as coisas funcionam de uma outra forma muito parecida, que são os editais de pesquisa e as avaliações dos projetos por assessores. O dinheiro para pesquisa geralmente vem de editais específicos. Se você entrar no site do CNPq, por exemplo, vai ver uma série de editais abertos para financiamento à pesquisa. Esta é uma forma de mais ou menos direcionar o dinheiro público para o desenvolvimento de pesquisas de maior interesse. Assim, aqueles pesquisadores que tem condições de desenvolver pesquisa dentro da chamada do edital, submetem propostas que serão então avaliadas por especialistas na área que recomendarão ou não sua proposta para o órgão do governo, para que o dinheiro seja liberado ao pesquisador ou não. Depois a cobrança é feita na forma de relatórios e publicações geradas na pesquisa. Os agentes financiadores de pesquisa nunca liberam dinheiro a um pesquisador antes de avaliar qual é a proposta, sua pertinência, grau de experiência do pesquisador na área, se tem infra-estrutura disponível, e assim por diante.

O senhor concorda que o maior responsável pela não motivação dos estudantes durante a graduação terem uma transmissão passiva de conhecimentos, o que os leva a crer que tudo já esta resolvido?  A simplificação didática não sacrifica a dinâmica dos conhecimentos?  Os bons de datas na realidade são nocivos?

Creio que os bons professores não se aplicam a esta descrição. E aí, neste caso, sua afirmativa pode ser correta.  Geralmente disciplinas que geram desinteresse, é porque tem algum problema, e deveriam ser revistas. Creio que em cursos compromissados com sua função formadora, isto deva ser sempre trazido para discussão. O que posso fazer, é falar apenas das minhas aulas, onde todo semestre busco trazer novas informações, aplicações e exemplos práticos e assim por diante. Outra questão sobre desinteresse, é que cada um tem seu próprio objetivo numa faculdade, ou pelo menos desenvolve isso ao longo do curso. Eu por exemplo, na graduação detestava Botânica, e por melhor que fosse o professor, nunca consegui desenvolver interesse suficiente para me aprofundar nessa área. Então creio que isso é algo que nunca vai mudar, sempre vão existir as aulas legais, as chatas, as motivantes e as sonolentas. Nas minhas aulas trabalho muito também a questão de que estamos ali para dar a base. Aulas de graduação no meu entender vão muito mais do interesse do aluno do que do esforço do professor.  E no meu caso não compreendo o termo “simplificação didática”, pois aprofundo ao máximo o conteúdo, de acordo com os livros da área. Claro que sempre há como aprofundar ainda mais, mas isso são temas para especializações futuras, ou pós-graduação, onde o aluno pode ter oportunidade de aprofundar tópicos avançados. Não dá para se aprofundar demais numa disciplina de bioquímica de ácidos nucléicos quando pode ser que na verdade mais da metade da turma está no curso querendo se especializar em ecologia de morcegos, por exemplo, e está ali só para cumprir carga horária.

Como anda o desenvolvimento da bioquímica no Brasil? E o que falta ao Brasil para desenvolvê-la ainda mais? O senhor acredita que a maior deficiência da pesquisa em bioquímica do Brasil é devido da falta de recursos materiais ou humanos?

A bioquímica no Brasil não vai tão mal assim. Temos diversos estudos que são referencia e modelos internacionais. O número de publicações na área é um dos mais expressivos em ciência no Brasil, e creio que temos condições para concorrer, ou pelo menos acompanhar (já que não gosto da palavra concorrência) de igual para igual com países desenvolvidos. Realmente o que falta são recursos principalmente materiais, pois recursos humanos de qualidade estamos produzindo aos montes. Enquanto o Brasil investe cerca de 1% do que arrecada em pesquisa, os países líderes investem 10%. Mas as coisas aos poucos estão melhorando. O que acontece é que estamos no Estado de São Paulo, que é responsável pela maior parcela de produção científica do Brasil. Neste contexto, acho que falta é realmente mais dinheiro para investir e alavancar a ciência em outras partes do país.

“O número de publicações na área é um dos mais expressivos em ciência no Brasil, e creio que temos condições para concorrer, ou pelo menos acompanhar (já que não gosto da palavra concorrência) de igual para igual com países desenvolvidos.”

 

O senhor endossaria afirmativa de que a eterna desculpa de falta de recursos é a confissão de falta de criatividade?  Afinal as grandes descobertas foram feitas a partir de acontecimentos banais, haja vista a penicilina, a lei da gravidade ou mesmo a teoria da relatividade.

Os pesquisadores brasileiros estão entre os mais criativos do mundo, então não concordo com essa afirmativa. Imagina que nos países desenvolvidos, as pessoas têm técnicos especializados em seus laboratórios só para compra de materiais, para lavagem de materiais usados, e que usam muito material descartável nas pesquisas, o que acelera muito o andamento dos projetos. Aqui não temos técnicos, temos que lavar materiais e reaproveitar, ganhamos menos e temos menos recursos financeiros para a pesquisa, e mesmo assim conseguimos desenvolver projetos de renome internacionais. Isto tudo graças a criatividade e talvez imensa paciência e bom humor dos brasileiros.

O senhor acredita que a mentalidade de colonizado prejudica ou inibe a nossa criatividade?

É algo que está enraizado na nossa cultura e que não mudará facilmente. Mas acho que não prejudica nem inibe a criatividade. Na verdade acho que até contribui para que tenhamos ainda mais orgulho do que é produzido aqui.

Porque as universidades brasileiras dão as costas para a sociedade?  O ensino médio em São José do Rio Preto é da pior qualidade e a UNESP nunca pensou em fazer um colégio de aplicação. O que o senhor atribui tal fato? A falta de percepção ou medo de enfrentar o poder econômico dos cursinhos preparatórios?

Essa é uma visão equivocada, a Universidade nunca dá as costas para a sociedade. Existem diversos programas na universidade que são voltadas para a sociedade. No nosso curso, por exemplo, temos diversos programas de capacitação de docentes de química do ensino fundamental e médio. Os cursos de licenciatura têm trabalhado arduamente para estabelecer convênios com as escolas públicas municipais e estaduais, com o objetivo de melhorar o ensino pela renovação do conhecimento de materiais que são agregados às escolas, e ao mesmo tempo utilizar as escolas como laboratórios na formação dos alunos, o que acaba sendo bom para ambas as partes.

A questão de se criar uma escola de aplicação já é discutida a muito tempo na UNESP, o problema é que não há dinheiro para isso. Temos que lembrar que somos 16 unidades no Estado de São Paulo. O curso de química tem apenas dois técnicos de laboratório, quando achamos que deveria ter pelo menos cinco ou seis, e mesmo conseguir a contratação de um é algo extenuante e tem sido impossível, quem dirá a criação de uma escola de aplicação. Até mesmo salas de aula já são problema, o que demanda muito jogo de cintura para as pessoas que criam os horários das disciplinas, pois o uso de salas de aulas no IBILCE está no máximo. Precisaríamos mais prédios com salas de aula para graduação, e não há previsão para resolução deste problema. Imagine a construção de escola, com contratação de professores, pessoal administrativo, prédios, etc.

O fato de o senhor trabalhar com critérios de exatidão, ou seja, com valores de erro inferiores a p<0,0001 o tenha motivado a se libertar das amarras cientificas e se entusiasmar por um gênero de musica que é justamente o contrario, ou seja, a ruptura com o convencional e a valorização da improvisação e a tradução livre dos sentimentos de qualquer natureza?

A questão da música na minha vida vem de antes de eu sequer saber o que faria da vida, pois comecei a gostar de rock lá pelos meus 13, 14 anos. Comecei a tocar guitarra com 15, e até os 17 eu ia fazer arquitetura. Fiz Biologia porque arquitetura na época era 14 candidatos por vaga e Biologia apenas quatro. Acho que uma coisa é totalmente independente da outra. A música não me levou a fazer Biologia nem o inverso. Simplesmente esteve sempre no meu sangue e consigo conciliar as duas coisas numa boa. Quer dizer, pelo menos em parte, já que só não posso estar tocando com minha banda porque sou professor aqui em Rio Preto e minha banda é em São Paulo. Se há algo relacionado, é que música é paixão, e a vivo com paixão, então de certa forma pode ser que ela tenha me ensinado a lidar da mesma forma com o que faço na UNESP, ou seja, fazer aquilo que te dá satisfação.

O senhor sendo músico e roqueiro alem de cientista vê muitos paralelos entre a música e a ciência desenvolve? Se sim, quais paralelos seriam esses? 

Infelizmente sou obrigado a dizer que não vejo paralelos em comum. Consigo separar bem as coisas e, acho eu, ser bom com o que faço nas duas áreas. Não consigo achar nenhum meio onde uma pudesse complementar a outra. Tem gente que pinta, e aí pode se especializar em pintura dentro da sua profissão. Outros gostam de leitura, e lêem mais livros sobre sua área de atuação. Eu na UNESP sou bioquímico, dou aula, faço parte de comissões, escrevo artigos e projetos, administro verba de projeto, vou a eventos apresentar trabalhos ou palestras. Em casa ouço meus cds de rock, toco minha guitarra, leio meus livros do Stephen King, faço meus desenhos, coleciono meus bonecos e tranqueiras de filme e música, jogo playstation 2 com meu filho, vou a shows de rock de vez em quando, faço minhas tatuagens. São vidas paralelas que pouco se cruzam, sem nunca uma prejudicar a outra e sem nenhuma prevalência de uma sobre a outra.

Eduardo e sua banda Lastpain no programa Noite Afora da MTV

Eduardo e sua banda Lastpain no programa Noite Afora da MTV

“é que música é paixão, e a vivo com paixão, então de certa forma pode ser que ela tenha me ensinado a lidar da mesma forma com o que faço na UNESP, ou seja, fazer aquilo que te dá satisfação.”

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