O muro da vergonha

A favela inicialmente se formou por uma absoluta falta de residências. Hoje a favela não é uma conseqüência apenas, da falta de residência. É muito mais o resultado de uma concentração injusta de renda de tal forma, que o trabalhador que ganha um salário mínimo ou pouco mais, não tem condições de fazer face ao custo da cidadania: impostos, luz, gás, telefone alem do sustento da família.

Além deste fator, que é o primordial, a favela tornou-se o habitat feito sob medida para as atividades ilegais, como o trafico de drogas, o jogo clandestino, a exploração sexual e o crime organizado. Cercar uma favela é dar concretude a um fato sociológico indiscutível, ou seja, a exclusão social explicita.

Dois muros separam a classe social dos que tem mais do que deveriam ter, daqueles que tem muito menos do que merecem ter. O primeiro muro são as cercas elétricas, câmaras de vigilância, guardas armados e muros que em nada diferem dos antigos fossos que protegiam a nobreza nos castelos medievais. O segundo muro, em torno da favela é a prisão preventiva dos bárbaros, dos favelados, tratados por uma sociedade cruel como se fossem bárbaros impedidos de entrar nas cidadelas pelos fortes e muralhas.

 No entanto em algumas situações, onde existe um programa de desfavelamento, o muro visa impedir novos assentamentos o que dificultaria a recuperação social da comunidade em foco. Existe também, em muitas situações a necessidade de se evitar novas construções, que destruiriam a vegetação que é o grande guardião da erosão e conseqüentes desabamentos e deslizamentos de terra com vitimas e mais vitimas causadas por intempéries e o inevitável assoreamento de rios e mananciais.  

Favela é uma doença social e, como e qualquer enfermidade, a prevenção é mais eficiente e mais eficaz do que qualquer remédio, que se transforma em muro de lamentações contra uma distribuição perversa das riquezas. O pior muro não é o de concreto ou tijolo, mas o divisor inclemente que separa ricos de excluídos que é construído dia-dia por uma legislação ditada pelos interesses das elites e por um governo, apoiado igualmente pelas mesmas elites e por uma justiça, que é sega na acepção popular do termo – o pior sego é aquele que não quer ver. Este muro político, jurídico e econômico deve ser derrubado.

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Sobre Jéssica Bárbara Cegarra

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