A nossa existência esta condicionada a uma vida cerebral. Legalmente estamos mortos quando esta atividade inexiste. A ética obriga aqueles que por nós são legalmente responsáveis a antecipar-se à parada cardíaca e permitir a extração de todos os nossos órgãos, inclusive do coração. Indivíduos idosos e não passiveis de serem doadores, como os portadores de doença maligna, morrem quando o coração para irreversivelmente. Apenas por dificuldades culturais, não se permite decretar-se a morte como sinônimo de sensação da atividade cerebral.
O povo, na sua indiscutível sabedoria, há muito tempo preconizou tal dubiedade e costuma-se dizer, do individuo com atividade cerebral discutível, manifestada por pouca inteligência ou por ações surpreendentes inesperadas – está morto, só precisa ser enterrado. Mais do que o fator que limita a nossa existência, a atividade cerebral é a única razão na nossa existência.
É bem verdade que nós agimos, a partir de uma determinada fase do nosso desenvolvimento como autômatos, verdadeiros robôs. A vida se tornaria extremamente cansativa e insuportável se nós tivéssemos que refletir a cada momento que volume de água deveríamos beber, se devemos ou não cumprimentar alguém ou se devemos movimentar a perna direita ou à esquerda para dar um passo.
Vivemos uma grande parte da vida de modo alienado, regido por condicionamentos sociais e alguns por nos mesmos adquiridos. Causa sempre estranheza, viajando de ônibus ou de trem, observar que o passageiro ao seu lado faz o sinal da cruz sempre que passa em frente a uma igreja. Não é diferente a estranheza de pessoas mais idosas de ver uma jovem dos dias de hoje com a barriga exposta, um piercing cravado no umbigo e uma tatuagem na nádega, exposta numa saia propositadamente com cintura baixa.
Tudo que fazemos nem sempre é fruto de uma atividade cortical, ou seja, oriunda do lobo frontal onde se organizam os nossos pensamentos. Temos uma série de automatismos cerebrais não corticais e medulares. Os psicanalistas costumam dividir atividade intelectual como consciente e inconsciente. O termo subconsciente é impróprio, pois o prefixo sub implica num conceito de inferioridade hierarquia ou espacial. O inconsciente existe lado a lado com o consciente e é o maior mundo já descoberto. O nosso inconsciente é muito maior que o nosso consciente.
Vivendo-se em sociedade, o nosso consciente se assemelha muito ao do outro, pois somos regidos por um código acertado como o mais adequado a nossa coexistência. O nosso inconsciente, segundo Jung é muito mais coletivo que o próprio consciente, pois, nele trazemos códigos arquivados desde a mais remota existência, os arquétipos.
O exemplo mais evidente do conceito de Jung é o incesto, tribos primitivas sem nenhum contato ou informação da civilização pós Adanica (depois de Adão) não aceitam relações sexuais entre pais e filhos e entre irmãos.
Graças ao cérebro, sentimos pelo tato, as formas e a textura das coisas, o quente e o frio, a dor e o prazer. Aprendemos a distinguir coisas pelo odor emanado, do fétido dos pântanos a flagrância das flores. Reconhecemos o belo e o amigo pela visão. Escutamos o canto dos pássaros e os gemidos da dor. Nós agimos em direção ao bem ou fugimos do mal. Nós crescemos e cresceremos mais se mais afeto tiver-mos. Fisicamente em estatura, e emocionalmente em ternura. Nós sorrimos nas venturas e choramos nas desgraças. Nós mantemos o nosso corpo em plena atividade, ingerindo os alimentos, os absorvendo, os transformando em energia e nos livrando dos resíduos tóxicos. Nós modificamos o mundo com o nosso trabalho.
Antes de sapiens nós somos homofaber. O trabalho é inerente ao homem tanto quanto é sua capacidade de pensar. Não procede dizer que vivemos apenas uma vida. Vivemos quantas vidas quisermos graças a nossa memória que nos trás a cada momento um passado que hoje é visto com pensamento amadurecido com os anos vividos. Pela leitura vivemos a vida de outros e vivemos a vida de outros povos e de outras eras.
O cérebro é a estrutura mais plástica do mundo. Por plasticidade se entenda a capacidade de se modificar em forma e instrutura pelas influências externas. O cérebro se distingue de todas as outras coisas, por poder ser moldado pelas próprias experiências nele arquivadas. Independente sequer da nossa consciência o cérebro estabelece conexões, entre experiência que muitas vezes ultrapassa as possibilidades das nossas percepções.
De todas as atividades cerebrais a mais complexa é o campo das emoções. Tão variadas. Tão pessoais tão surpreendentes elas são, que o seu domínio está além da capacidade da mente mais esperta. O premio Nobel sugere a conservação de espermatozóides de inteligências privilegiadas para melhorar a espécie humana. Uma única coisa parece que deve prevalecer em todas determinações coletivas – a liberdade de escolha. Citando um exemplo muito atual, a questão das cotas destinadas a grupos étnicos ou sócio econômicos, poderá em certas pessoas despertar um sentimento de subestima capaz de atormentar uma pessoa por toda sua vida. Parte-se de um pressuposto sem comprovação cientifica. O individuo com curso superior é mais feliz. Uma proposição sem qualquer fundamentação lógica. Em termos de felicidade, a única coisa que sabemos é ser mais facilmente conquistado quanto menos amarras em nós são colocadas. Sejam de caráter afetivo, moral, político ou social.
Uma primeira analise fui totalmente favorável à concessão de cotas a grupos menos privilegiados, refletindo mais profundamente e ouvido depoimento dos próprios potencialmente beneficiados, conclui que antes de um direito, deve ser apenas, e tão somente uma alternativa. Em vez de cotas deveria haver um esforço coletivo no sentido de que o conhecimento seja mais acessível a todos, não obrigatoriamente institucionalizado, antes estimulado, e até premiado, pois, aprendi que em qualquer idade o ser humano é capaz de estabelecer novas sinapses (conexões nervosas), ou seja, enriquecer o seu arquivo de experiências e conhecimento.
Mais do que a forma física, ou a saúde orgânica, o conhecimento permite envelhecer mais rico e mais proveitoso. Talvez aos 70 anos, quem jamais conseguiu caracterizar a expressão do sorriso de Monalisa consiga, até mesmo para o seu próprio deleite uma explicação para este grande enigma. Já se disse que o importante não é ler muitos livros, vale mais ler bons livros várias vezes. Dom Quixote para um adolescente pode se revestir de algo picaresco. Anos mais tarde ele assumirá a figura que traduz toda nossa revolta perante um mundo que se torna cada vez mais violento e nos alivia da frustração que temos vivido tentando destruir os moinhos de vento da injustiça e da desigualdade social.
O conhecimento do cérebro apreendendo a sua permanente dinâmica nos faz mais seguros de não hesitar-mos em mudar as nossas opiniões. Alguém já disse – Não há escravidão pior que ser subordinado hás suas próprias convicções.
Já li toda obra de Nietzsche e tenho enorme fascínio pelas suas propostas e reflexões. Espero ler novamente numa idade mais avançada e confrontarei com as anotações que tenho deixado registrado para saber se cresci ou não. As minhas concordâncias e discordes com pensamento Nietzschiano não devem permanecer os mesmos. Espero que não. Por mais verdadeiros que eles possam ser, todas as verdades como sabemos, são transitórias.